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As eleições francesas.

Terça-feira, 24.04.12

 

Estive há dias em Paris, cidade que muito aprecio. Ao passar junto ao Arco do Triunfo assisti a um desfile em homenagem a antigos combatentes da II Guerra Mundial, em que a assistência denotava um patriotismo profundo e um enorme respeito pelo sacrifício dos antigos combatentes. Pensei logo no contraste com a política actual de Sarkozy, que se tem assumido na esfera internacional como um autêntico fantoche de Angela Merkel, e o que isto deveria fazer lembrar os franceses o regime de Vichy. A partir daí fiquei convencido que Sarkozy tinha tantas hipóteses de ganhar as eleições como a Torre Eiffel de dançar o samba. Os resultados de domingo passado confirmaram a minha opinião. Hollande pode ser um candidato fraquíssimo e a sua política económica um disparate total, susceptível de conduzir a França ao desastre. Mas o facto de ter batido o pé à Alemanha na questão do tratado orçamental vai seguramente dar-lhe o voto dos franceses na hora final.

 

Também não foi surpresa para mim a votação de Marine Le Pen, que sempre considerei muito mais perigosa do que o pai. Na verdade, Marine Le Pen está a conseguir quebrar o bloqueio do regime à Frente Nacional, que levava a que, mesmo com votações na ordem dos 15%, ela não contasse no espectro político francês. Na única vez em que Jean-Marie Le Pen, devido a uma divisão da esquerda, conseguiu passar à segunda volta, todos os partidos se uniram em redor de Chirac, dando-lhe uma votação albanesa de 84% dos votos. Mas agora, com a votação da extrema-direita perto dos 20%, a direita tradicional vai querer pescar os votos da Frente Nacional, como se viu com o discurso de Sarkozy na primeira volta e que agora vai acentuar na segunda. O resultado disto pode ser uma catástrofe para a direita francesa, que se pode ver obrigada a integrar a Frente Nacional.

 

Tudo isto só demonstra o desastre aonde Sarkozy conseguiu conduzir a direita francesa. Infelizmente não me consigo recordar de um presidente francês pior. Só espero que Hollande não o venha ainda a superar.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 12:25

A imagem de Portugal justifica tudo.

Quarta-feira, 11.04.12

 

O Primeiro-Ministro é useiro e vezeiro em justificar decisões absurdas com base na imagem de Portugal para os estrangeiros. Na altura em que rejeitou a tolerância de ponto aos funcionários públicos no Caranaval, obrigando-os a trabalhar enquanto todo o sector privado folgava, também usou o argumento de que estava cá a troika e não se poderia dar má impressão. Agora, depois de ter faltado à sua promessa (de 1º de Abril) de que não iria cortar os subsídios, falta também à promessa da sua reposição em 2014, com o argumento de que seria mau para a imagem de Portugal orçamentar essa despesa em 2013. O argumento é absurdo, pois se lá fora dá má imagem a Portugal pagar os salários que o Estado contratou com os seus funcionários e as pensões dos seus pensionistas, naturalmente que essa má imagem tanto se verificará em 2014 como em 2020, 2030 ou até 2050. Eu, pelo contrário,acho que a má imagem vem de o Estado não honrar os seus compromissos.

 

E já agora, há outras coisas que também dão má imagem a Portugal e que deveriam preocupar o Primeiro-Ministro. Não se preocupará o Primeiro-Ministro com os 50.000 funcionários públicos que vivem com salários penhorados, graças à sua decisão? Com a taxa de desemprego que atingiu os 14,8%, a mais alta desde que Portugal entrou na União Europeia? Com o número de insolvências das empresas, que já tinha disparado desde a crise financeira, e aumentou 42,5% no princípio do ano? Com o número de pessoas que todos os dias devolvem as casas ao banco, número que irá ser agravado com a subida do IMI? Com o aumento cada vez maior da recessão em Portugal, apenas ultrapassado na Europa pela Grécia? Tudo isto deve dar uma imagem idílica de Portugal no estrangeiro.

 

Em qualquer caso, parece-me óbvio que o Primeiro-Ministro de Portugal se deveria preocupar mais com a situação dramática de muitos portugueses e menos com a imagem que as suas decisões provocam nos credores estrangeiros. Governa o país graças ao voto dos eleitores portugueses e não devido a um qualquer mandato dos credores estrangeiros.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 07:20

A presidência fechada.

Terça-feira, 10.04.12

 

Pelos vistos Cavaco Silva acaba de se deixar arrastar pelo desastre em que o Governo se enredou nesta semana em torno da reposição dos subsídios e do diploma secreto sobre o congelamento das reformas antecipadas.

 

Em relação ao congelamento das reformas, Cavaco Silva invoca o "interesse nacional" para promulgar em segredo os diplomas do Governo. Sabemos assim que as regras sobre a transparência na actividade governativa e a liberdade de informação já nada valem e que o Governo e o Presidente se entenderão sempre para aprovar qualquer legislação clandestina, bastando para isso a invocação de uma arbitrária razão de Estado. Podemos imaginar a quantidade de diplomas que a partir de hoje podem ser elaborados e publicados na clandestinidade, de que os cidadãos só saberão quando lerem o diário da república electrónico.

 

Já em relação à reposição dos subsídios cortados (e já agora dos salários também cortados na era Sócrates), Cavaco Silva considera "prematura" a discussão, ao mesmo tempo que se recusa a esclarecer se ele próprio continua ou não a receber esses mesmos subsídios. O problema é que sempre se afirmou — e foi isso que o Tribunal Constitucional sancionou — que esses cortes eram temporários, e o que é temporário tem que ter um limite temporal definido. Afirmar que a reposição dos subsídios, como se diz do Natal, ocorrerá quando um homem quiser, implica ter-se praticado uma monumental fraude aos cidadãos, com o qual o Presidente não deveria contemporizar, enquanto garante do Estado de Direito. Ora, pelos vistos não apenas aceita essa situação, como também não esclarece o seu caso pessoal, quando é absolutamente inaceitável que possa não estar sujeito às mesmas regras que promulgou.

 

Não há nada pior para um político que não compreender os sentimentos dos cidadãos. Mário Soares gabava-se de fazer presidências abertas. Cavaco acabou de fechar a sua.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 18:30

O simbolismo de uma tragédia.

Quinta-feira, 05.04.12

 

Esta notícia do suicício de um pensionista grego de 77 anos em plena Praça Syntagma reveste-se de um enorme simbolismo. Trata-se de um cidadão que tinha um contrato com o Estado, pelo qual ele asseguraria a sua reforma em virtude dos descontos que fez durante uma vida inteira. Para satisfazer os credores estrangeiros, o Estado quebrou esse contrato, cortando-lhe essa pensão, deixando o cidadão na miséria. Provavelmente o cidadão achou que o seu Parlamento o defenderia e que a Grécia tinha uma constituição que o protegeria. Quando viu que o país tinha passado a ser governado pelos credores estrangeiros, pôs termo à sua vida precisamente na praça da Constituição onde se encontra o parlamento grego. Ora, um país em que os cidadãos se matam em frente ao seu Parlamento é um país que já morreu.

 

Por cá, infelizmente as coisas não vão muito melhor. O tribunal constitucional também aceitou cortar salários e pensões, desde que o corte fosse temporário. A argumentação é ridícula, uma vez que enquanto dura o corte de salários as pessoas podem entrar em insolvência e ficar na miséria. No entanto, já veio a Comissão Europeia pedir que o corte se torne definitivo e o Primeiro-Ministro imediatamente referiu que o dinheiro confiscado só será devolvido a partir de 2015 e às pinguinhas. Um Estado que prefere proteger os credores estrangeiros em lugar dos seus funcionários e pensionistas é um Estado que não se respeita a si próprio. Para defender o Estado português, exige-se aos governantes algo mais do que pôr a bandeira de Portugal na lapela do casaco: exige-se que protejam os cidadãos portugueses.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 07:44

Marcelo, Costa e Seguro.

Terça-feira, 03.04.12

 

Marcelo Rebelo de Sousa anda há muito tempo nas suas homilias dominicais a preparar pacientemente a sua candidatura a Belém. Por esse motivo, nessas homilias costuma reservar algum tempo para condicionar as candidaturas adversárias. No seu campo político, é habitual mandar farpas a potenciais adversários, como Durão Barroso. No campo da esquerda, procura sempre favorecer o candidato que mais facilmente possa derrotar e impedir o surgimento de candidaturas fortes. Foi assim que há dias apareceu a lançar Carvalho da Silva como candidato e é por isso que no domingo passado resolveu lançar António Costa a líder do PS, precisamente para o afastar de uma candidatura a Belém.

 

 

Na verdade, conforme aqui tinha escrito, o livro Caminho Aberto de António Costa é claramente uma declaração de candidatura a Belém, sendo esse o destino natural do caminho por ele aberto. António Costa, desde que saiu do Governo para a Câmara de Lisboa, que ambiciona repetir o percurso de Jorge Sampaio. É por esse motivo que a gestão mais corrente da Câmara é habitualmente exercida por Manuel Salgado, enquanto que António Costa se reserva para as aparições mais importantes, também possuindo um espaço televisivo semanal. Aliás, nos seus comentários televisivos, é raríssimo ouvi-lo falar da Câmara, apenas se pronunciando sobre a política nacional. Naturalmente por isso que Marcelo preferia ver Costa substituir Seguro a confrontar-se com ele nas presidenciais.

 

 

Seguro percebeu claramente a "golpaça" de Marcelo, mas reagiu a quente e de forma disparatada. Talvez contaminado pelo ambiente pascal, Seguro acusou Marcelo de faltar à verdade três vezes (só três?), comparando-se assim a Jesus Cristo, a quem Pedro negou três vezes. Logo a seguir, acusou Marcelo de "ataque vil e miserável" a si próprio, parecendo assim ter entrado na caminhada para o calvário. A continuarmos nesta senda, iremos assistir à crucificação de Seguro como líder partidário, sendo certo que na política as ressurreições são raras.

 

Assistindo a tudo isto, António Costa lava as mãos do assunto, pedindo concentração nos problemas do país. Já Marcelo convoca todos para o próximo episódio da novela, a sua homilia no Domingo de Páscoa. Parece-me que vamos ter uma Páscoa muito pouco serena lá oara os lados do Largo do Rato. 

 

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publicado por Luís Menezes Leitão às 08:25








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