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Ucrânia: A história repete-se?

Quinta-feira, 20.02.14

Foto: Louisa GouliamaK/AFP 

 

As esperanças da Ucrânia à independência e até a uma eventual integração na União Europeia estão hoje reduzidas a cinzas. Tristemente isto parece ser o destino histórico do povo ucraniano. A dissolução da URSS, a que assistimos a partir de 1991, parece ter sido apenas um compasso de espera que permitisse a reconstituição do Império Russo, a que Vladimir Putin se tem dedicado com enorme esmero. O curioso é que parece estar-se a repetir ao inverso o que ocorreu no início do século XX em que a a dissolução do Império Russo em 1917 parece ter sido apenas um ensaio que permitisse a construção da URSS. Em ambos os casos a Ucrânia não consegue escapar à órbita russa.

 

Após a revolução de Fevereiro de 1917, Lenine apareceu a apoiar as aspirações de autonomia da Ucrânia, criticando o governo de Kerenski por as procurar travar. Quando chegou ao poder, a ambição de parar a guerra com a Alemanha levou-o a assinar o tratado de Brest-Litovsk que, reconhecendo uma independência formal da Ucrânia, na prática a entregava aos alemães. A subsequente derrota da Alemanha permitiu-lhe a recuperação dos territórios entregues, tendo exigido durante a guerra civil que se seguiu uma defesa intransigente da Ucrânia. Ficou nessa altura célebre uma frase que terá proferido: "Se perdermos a Ucrânia, perdemos a nossa cabeça".

 

Sob a tutela de Estaline, a Ucrânia foi absolutamente massacrada, tendo sido objecto de um dos mais esquecidos genocídios da história, o Holodomor. Efectivamente, mal assume o poder Estaline decide quebrar quaisquer aspirações independentistas dos ucranianos. No Inverno de 1932-1933, decide mesmo esmagar a população pela fome estimando-se que cerca de 10 milhões de ucranianos tenham morrido de fome, como é aqui recordado. Estaline explicaria a sua decisão através de uma citação que ficou tristemente célebre: "A morte resolve todos os problemas. Sem o homem não há problema".

 

Crianças ucranianas na grande fome de 1932-1933 

 

A Ucrânia foi nessa altura objecto igualmente da cobiça de outro torcionário. Conforme Hitler escreveu no Mein Kampf, considerava seu objectivo de vida recuperar para a Alemanha todos os territórios que o Kaiser tinha obtido em Brest-Litovsk, incluindo naturalmente a Ucrânia. Por isso, logo após que conseguiu vencer na frente ocidental europeia, atacou a União Soviética, chegando a ocupar a Ucrânia. Depois de Estalinegrado, os soviéticos esmagaram a Alemanha, ficando claro que iriam dar as cartas no pós-guerra. Por decisão de Estaline, a Ucrânia foi logo admitida nas Nações Unidas, juntamente com a URSS e a Bielorússia, apenas para efeito de ter três votos na Assembleia Geral. Tal facilitou, no entanto, a independência ucraniana aquando da dissolução da URSS pois já era membro da ONU.

 

Após a independência, a Ucrânia tem vivido numa hesitação entre a esfera de influência da União Europeia e a da Rússia, que normalmente se reflecte numa correspondente divisão do seu território entre um ocidente mais pró-Europa e um oriente mais pró-Rússia. Parece, no entanto, que agora o todo-poderoso Senhor do Kremlin quer cortar quaisquer veleidades pró-Europa, nem que para isso tenha que efectuar um brutal massacre da população, na esteira de Estaline. A União Europeia é que parece assistir impotente a isto, tendo-se limitado a aprovar umas sanções simbólicas quando os mortos já atingiam a centena. Na verdade, nada pode fazer. Além do enorme armamento de que a Rússia dispõe, há a enorme dependência que a Ucrânia e vários Estados Europeus têm do gás russo. Depois da intervenção na Geórgia em 2008, a reconstrução do Império Russo vai de vento em popa. 

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publicado por Luís Menezes Leitão às 19:05

O Santo.

Quinta-feira, 13.02.14

 

Se há uma coisa que caracteriza este país é a tendência para endeusar os Ministros das Finanças, mas apenas depois de eles terem deixado o cargo, altura em que o povo se esquece dos disparates que fizeram enquanto lá estiveram. É assim que hoje Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix aparecem a comentar frequentemente os resultados orçamentais sem que ninguém lhe pergunte como foi possível terem equilibrado os défices à custa de receitas extraordinárias como a titularização dos créditos fiscais ao Citygroup ou com a integração de fundos de pensões da banca. Da mesma forma, ninguém questiona Teixeira dos Santos como foi possível deixar a situação chegar ao ponto de nas vésperas da bancarrota ainda se estar a assinar contratos para construir o TGV.

 

Faltava por isso Vítor Gaspar ensaiar o seu processo de beatificação através de uma entrevista a Maria João Avillez, entrevista essa que revela tantos milagres praticados pelo benemérito que estamos seguros que o alçarão brevemente à santidade. Ficámos a saber em primeiro lugar que Eduardo Catroga, que estava a negociar o programa do ajustamento, afinal nada percebia de negociações internacionais, o que levou Vítor Gaspar a intervir para a salvação do PSD e da pátria. Apesar de o pérfido Eduardo Catroga não se ter convertido, a imensa sabedoria de Gaspar causou uma profunda admiração no inner circle de Passos Coelho, os quais imediatamente viram que Vítor Gaspar era afinal o profeta que os poderia conduzir no caminho para a terra santa onde a troika forneceria leite e mel. António Borges é assim o enviado que chama Gaspar a assumir a pasta das Finanças, com a absoluta confiança do Primeiro-Ministro, que lhe delega todos os poderes.

 

A seguir Vítor Gaspar, à semelhança de São Paulo na estrada de Damasco, tem durante uma viagem de avião para Bruxelas a visão da TSU que tornaria felizes todos os trabalhadores, forçados a abdicar de 7% do seu salário a benefício dos empresários. Infelizmente, no entanto, o povo ainda vive nas trevas e apareceu nas ruas a contestar a medida. E, vá lá saber-se porquê, o ministro Paulo Portas também não se deixou converter à mesma. Gaspar ignora naturalmente os processos mentais desse pérfido ministro, mas sabe bem que o mesmo pretendia uma alteração do rumo, o que o obrigou à saída. Na verdade, Gaspar sempre se assumiu como o responsável político do Governo, tanto assim que acertou a sua saída com o Primeiro-Ministro, quando viu que o objectivo político não foi atingido. Mas para que o Primeiro-Ministro não ficasse desamparado, Gaspar combinou com ele que lhe deixaria uma carta, com as suas instruções para a continuação da política. Maria Luís Albuquerque iria ser assim o Josué que iria atingir a terra santa, que Gaspar, como Moisés, só poderia vislumbrar de longe, mas foi ele a fazer todo o caminho. Infelizmente, no entanto, mais uma vez o pérfido ministro Paulo Portas ameaçou com uma demissão mal preparada, ao contrário da do próprio Gaspar, enfurecendo os demónios dos mercados.

 

Está assim demonstrado que Vítor Gaspar é um santo que foi incompreendido pelos homens de pouca fé. Estes até serão capazes de o acusar do pecado mortal da soberba.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 07:22

O Seguro do Governo.

Domingo, 09.02.14

 

António José Seguro tem exactamente o mesmo ADN político de Passos Coelho, parecendo os dois gémeos poliíticos. Efectivamente, ambos tiveram uma carreira integralmente passada na Jota, que lhes permitiu ascender ao escalão principal sem nada terem feito na sociedade civil, apenas em virtude da quota que os partidos habitualmente reservam aos seus jovens. A partir daí foram assumindo uma posição crítica nos respectivos partidos que lhes permitiu substituir os líderes logo que os mesmos foram perdendo eleições. E ambos têm uma irreprimível tendência para a asneira. A diferença é que enquanto Passos Coelho está habitualmente calado, deixando os disparates serem assumidos por outros, António José Seguro faz questão de que todos se apercebam dos inúmeros dislates de que sistematicamente se lembra. Assim, na altura em que o Governo destrói de uma penada 47 tribunais, sem que Passos Coelho diga uma palavra, imagine-se o que propõe António José Seguro: um tribunal destinado exclusivamente aos investidores estrangeiros, e que fosse "amigo" desses investidores. Fica-se assim a saber a ideia que tem da independência dos tribunais o líder do PS. Enquanto os portugueses perdem acesso aos tribunais, os investidores estrangeiros teriam um tribunal especial ao seu dispor, que seria seu "amigo" e que não deixaria de castigar os indígenas se eles se atrevessem a litigar com os queridos investidores estrangeiros.

 

É por essas e por outras que acho que os partidos da maioria tudo farão para que Seguro permaneça líder do PS, mesmo que tenham que perder as eleições europeias. Seguro é o maior seguro que este Governo que alguma vez poderia ter. É por isso que nos partidos da coligação todos devem estar a rezar para que Seguro permaneça líder do PS por muitos e bons anos. 

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publicado por Luís Menezes Leitão às 12:40

A ruína do euro.

Sexta-feira, 07.02.14

 

A visão que existe sobre a moeda europeia no estrangeiro é a de que não só o euro foi mal construído, como os europeus estão a fazer tudo para o destruir. E de facto a destruição do euro é o que parece ser o resultado mais provável da recente decisão do Tribunal Constitucional alemão que decidiu efectuar o reenvio prejudicial para o Tribunal de Justiça da União Europeia para esclarecer se considera a actuação do BCE de compra de dívida em conformidade com os Tratados, adiantando desde já a sua reprovação a essa actuação. Não sei qual será o pior dos resultados que daqui pode advir. Ou o Tribunal de Justiça da União Europeia declara a actuação do BCE em desconformidade com os tratados — e já se sabe que o BCE estará de futuro proibido de qualquer outra intervenção nesta área — ou dá a sua cobertura a essa actuação e o resultado pode ser a futura declaração de inconstitucionalidade dos tratados por contrariedade à constituição alemã. Em qualquer caso, estamos perante uma demonstração de que o Tribunal Constitucional Alemão se leva a sério e é imune a todas e quaisquer pressões. Este pode ser assim o dia da condenação definitiva do euro à ruína. Vamos ver as cenas dos próximos capítulos.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 12:31





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