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Sous les pavés, la plage!

Quinta-feira, 31.07.14

 

Tal como a Helena, eu, que há dias tinha uma posição neutral nas primárias do PS, começo a desejar ardentemente que António Costa ganhe de vez o partido  e liberte  Lisboa o mais rapidamente possível das constantes ideias disparatadas que sistematicamente executa, para grande desespero de quem ainda aqui vive (e são cada vez menos). Primeiro, transformou o Marquês de Pombal numa rotunda onde não se consegue circular e os carros ficam sistematicamente parados. Dizem-nos que é para aliviar a poluição, como se os engarrafamentos automóveis numa rotunda não causassem poluição. Depois colocou os sentidos da Avenida da Liberdade de pernas para o ar, recuperando uma ideia de Nuno Abecasis, que deu tão mau resultado nessa época, que ele nem sequer voltou a recandidatar-se à Câmara. Como bem disse então Gonçalo Ribeiro Telles, em Lisboa tinha deixado de ser possível ensinar as crianças a atravessar a rua. Finalmente, António Costa despachou a recolha do lixo para as freguesias, passando essa recolha a ser irregular, o que deixa as ruas num estado lastimável.

 

Mas claro que tudo isto são preocupações prosaicas, para quem pensa com romantismo constantemente em ideias cada vez mais absurdas para Lisboa. Assim, como não poderia deixar de ser vamos regressar a Maio de 1968, e ao slogan Sous les pavés, la plageVai haver assim uma "praia urbana bem no coração de Lisboa", com "sol, água, areia e muita animação". O coração de Lisboa, imagine-se, é o lindíssimo jardim do Torel, com uma das vistas mais fascinantes da capital, que vai ser assim inundado de areia e água, para que alguns possam chapinhar, a que se vai associar o ruído estridente de foliões, perturbando o sossego dos visitantes do jardim. Tenho a certeza de que o coração de Lisboa, que já está entupido com a má circulação e os resíduos nas artérias, vai pura e simplesmente estoirar com esta nova agressão. Que mal fizeram a António Costa os cidadãos de Lisboa para ele lhes fazer isto?

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publicado por Luís Menezes Leitão às 08:09

Orgulhosamente sós.

Segunda-feira, 28.07.14

  

Para muita gente o país arranjou uma nova causa nacional, que considera até semelhante à da independência de Timor-Leste: correr com o Sr. Obiang da CPLP. O sr. Obiang é evidentemente um patife e não pode ser admitido numa comunidade de países que até agora sempre prezou a democracia, o estado de direito e a boa governação. Trata-se de países que sempre foram geridos por grandes democratas, absolutamente insuspeitos de ceder à corrupção, palavra aliás que nem deve sequer ser portuguesa. Efectivamente, a CPLP era até agora uma comunidade de missionários desinteressados, apenas preocupados com o desenvolvimento da língua portuguesa no mundo, embalada no doce acordo ortográfico. E nessa comunidade todos os outros países se vergavam à sábia e prudente orientação de Portugal, que nunca se atreveram a pôr em causa. E muito menos  alguma vez um outro país pensou em utilizar a CPLP para fins económicos, o que claramente poria em causa os fins culturais puríssimos da organização, e que o seu líder, Portugal, nunca poderia aceitar.

 

Sucedeu, porém, uma tragédia nacional. O patife do Sr. Obiang, incapaz de falar português — até agora só conseguiu dizer "sim, sim", julgando se calhar que tal bastaria — conseguiu ser admitido na organização, contra a vontade do povo português, que o Presidente Cavaco foi incapaz de defender. Todos os outros países da CPLP quiseram admitir o Sr. Obiang contra Portugal, incluindo novos países arrivistas no mundo, como o Brasil e Angola, que não têm os séculos de história que tem Portugal e que por isso deveriam seguir obedientemente a nossa posição. Até Timor-Leste, que Portugal conseguiu sozinho arrancar das garras indonésias, nos atraiçoou, com Xanana Gusmão a andar de braço dado com o Sr. Obiang. Imagine-se que Xanana Gusmão até visitou recentemente a Guiné Equatorial, tendo sido convidado a assistir a uma reunião do Grupo de Personalidades Eminentes dos países ACP (África, Caraíbas e Pacífico), cuja sessão de abertura contou com uma intervenção do Presidente da Guiné Equatorial, não por acaso o patife do Sr. Obiang. Como é que se pode admitir semelhante traição de um combatente da liberdade à causa justa pela qual Portugal continua a combater? E como é que Xanana se atreve a participar numa reunião dos países ACP, quando se trata seguramente de uma organização de países malfeitores, ou nunca se reuniria no país do maléfico Sr. Obiang? Especialmente quando a alternativa é a maravilhosa CPLP, uma organização pura e desinteressada, onde nunca malfeitores deveriam entrar. Ai Timor, calam-se as vozes dos teus avós!

 

Isto não pode ser. Portugal tem que defender orgulhosamente só a sua posição. A Guiné Equatorial, mesmo tendo sido uma possessão portuguesa durante 300 anos, nunca pode entrar na CPLP, que tal seria uma vergonha para Portugal. Mesmo estando falidos, somos nós que mandamos na CPLP. Os outros países da CPLP têm que obedecer às posições portuguesas, sob pena de os expulsarmos também, juntamente com o Sr. Obiang, altura em que faremos a CPLP sozinhos. Assim ela manterá a sua pureza original, ficando os portugueses orgulhosamente sós. Há muitos anos que essa tem sido sempre a nossa posição no mundo.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 18:17

A guerra no horizonte.

Sábado, 26.07.14

 

 

A revista Time está convencida de que o abate do avião da Malaysia Airlines por parte dos rebeldes pró-russos corresponde a um regresso à guerra fria. Efectivamente, a situação faz lembrar o abate do avião da Korean Airlines pela URSS sobre a ilha de Sacalina em Setembro de 1983, quando a guerra fria estava no seu auge. Parece-me, no entanto, que o que se está a passar não representa qualquer regresso à guerra fria. Por muito que Putin queira reconstituir o antigo espaço soviético, o back in the USSR não é hoje mais possível. O que se está a passar é antes um regresso a 1914. Na altura também houve um crime bárbaro, o assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand pelo terrorista Gravilo Princip, o que serviu de motivo para que a guerra se iniciasse para esmagar todos os "sérvios regicidas". Agora, porque os rebeldes russófonos da Ucrânia cometeram também o bárbaro crime de abater um avião civil, Putin é sumariamente declarado culpado desse crime e a União Europeia vai aplicar sanções para mergulhar a Rússia na recessão. Parece assim que todo o povo russo vai agora expiar uma culpa colectiva pelos crimes cometidos pelos rebeldes pró-russos da Ucrânia.

 

Quem conhece um pouco da história da Rússia, sabe perfeitamente que estas sanções não vão vergar a Rússia, só podendo pelo contrário conduzir à guerra. Primeiro, é evidente que Putin não pode deixar de apoiar os russos da Ucrânia, sob pena de ser considerado um traidor na Rússia, o que facilmente acontecerá em virtude da fúria nacionalista que esta ameaça de sanções já está a gerar. Segundo, mesmo que suporte um verdadeiro inferno, o povo russo sempre resistiu aos ataques ao seu país. Quando Napoleão conquistou Moscovo, os russos entregaram-lhe a cidade em chamas, obrigando-o à retirada. Na segunda guerra mundial, mesmo depois de terem sofrido vinte milhões de mortos, os russos vergaram as tropas de Hitler, obrigando-as a retirar e ocuparam Berlim. Terceiro, o isolamento mundial também nunca assustou a Rússia. Estaline não hesitou em adoptar a fórmula do socialismo num só país, isolando a Rússia do resto do mundo, quando a revolução mundial desejada por Lenine não se verificou.

 

Não tenho dúvidas de que, se Putin for colocado entre a espada e a parede, terá que optar pela espada. É por isso que me parece que nesta história das sanções à Rússia, os dirigentes europeus estão a brincar com o fogo. A guerra não irá assim ser fria. Quem vai ter frio será o norte da Europa, quando falhar o abastecimento do gás russo. Já a guerra será muito quente. No fundo 2014 está a replicar 1914. Sem que ninguém se aperceba, andam todos a preparar o apocalipse.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 22:42

A Guiné Equatorial na CPLP.

Sexta-feira, 25.07.14

 

Confesso que não consigo acompanhar a histeria que se está a gerar em Portugal a propósito da entrada da Guiné Equatorial na CPLP, e que já nos custou este ataque cerrado do Jornal de Angola, país que tem defendido muito mais a língua portuguesa do que Portugal, com o disparatado acordo ortográfico em que se meteu. Aqui abaixo, o Pedro chega ao ponto de dizer que prefere a desintegração da CPLP a ver Obiang na mesa de honra.  Só que a CPLP é um dos mais importantes activos de que o país necessita para projectar a sua influência no mundo e a Guiné Equatorial é muito mais do que Obiang. Não se pode reduzir um Estado a um governante, a imitar Luís XIV, com o seu L'État c'est moi.

 

Não foi por ser governado por um ditador há décadas que Portugal foi impedido de entrar na NATO ou na EFTA. Da mesma forma, não é o facto de ter um ditador também há décadas que deve impedir a Guiné Equatorial de entrar na CPLP. Os ditadores passam, e os países ficam. No fundo, foi uma falta de visão de futuro semelhante que levou Portugal a não reconhecer o governo de Agostinho Neto aquando da independência de Angola, gerando uma inimizade entre os dois Estados que durou anos. O Brasil, passados cinco minutos depois da meia-noite de 11 de Novembro de 1975, já tinha reconhecido o Governo de Agostinho Neto.

 

Portugal também se obstinou em não querer deixar entrar a Guiné Equatorial, causando estranheza geral em todos os outros países da CPLP. Viajo imenso por esses países e há muito que me apercebi que a posição de Portugal não só estava isolada, como acima de tudo não era compreendida. A missão das organizações é ter sucesso e a expansão geográfica é uma forma de sucesso. Ora, a Guiné Equatorial tem o maior PIB per capita de África e um índice de desenvolvimento humano acima de outros países da CPLP, como a Guiné-Bissau ou mesmo Moçambique. Há assim todo o interesse em que entre na CPLP, permitindo que esta se torne uma organização económica forte, e não apenas cultural.

 

A União Europeia foi chão que deu uvas, tendo atirado Portugal às feras da troika. Só não tivemos uma crise muito pior devido ao investimento angolano em Portugal. Não vejo por isso razão para Portugal acrescentar o facto de ser pobre a ser mal agradecido, pondo-se contra todos os outros países da CPLP, rejeitando a entrada de um novo Estado, cuja adesão é importante para a organização.

 

A Guiné Equatorial tem uma enorme importância em África, com o seu território continental, Rio Muni, e as Ilhas de Bioko — onde fica a capital, Malabo —  Ano Bom, Corisco, e Elobey. Pode não ser um país lusófono, mas tem uma forte influência lusíada. Como se pode ler aqui, o país foi descoberto por Fernando Pó em 1471 e permaneceu português até 1778, altura em que foi cedido à Espanha por tratado. Há assim todo o interesse histórico em recuperar a influência portuguesa no país, para o que este se mostra disponível. Tal até devia ser motivo de orgulho para Portugal, que consegue recuperar influência num território que abandonou por exclusiva decisão sua há 200 anos.

 

Não se fala português na Guiné Equatorial? É um facto, mas também não se fala português em Timor-Leste, mas sim tétum, não sendo o português sequer usado como língua de comunicação. Na Guiné-Bissau, a língua de comunicação é o crioulo, sendo o português pouco usado. Nos confins de Moçambique não consegui falar português com ninguém. O que interessa é a história comum e essa existiu durante mais de 300 anos. Os Obiang deste mundo passarão e os países e as organizações ficarão, sendo importante que Portugal mantenha as suas relações com os países da CPLP. Mais do que Realpolitik, o que se exige é visão de futuro.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 11:04

O candidato.

Terça-feira, 22.07.14

 

Depois de ter ouvido Passos Coelho dizer que um dos motivos da sua deslocação ao Sri Lanka foi reconhecer o trabalho extraordinário da AMI, tive a certeza que isso significava da sua parte uma manifestação de apoio para Fernando Nobre também se candidatar às presidenciais. Mais uma vez Passos Coelho insiste na estratégia TMMRS (Todos Menos Marcelo Rebelo de Sousa), e não pára de lançar sinais de abertura para todos os candidatos e mais alguns que o possam impedir de ver Marcelo em Belém. Só que escusava de se deslocar ao Sri Lanka para esse efeito, num gasto desnecessário para os contribuintes. Uma simples declaração pública de apoio em qualquer lugar do Portugal profundo, que depois do seu governo está hoje em dia tão necessitado da AMI como o Sri Lanka, chegaria.

 

Como não poderia deixar de ser, Fernando Nobre respondeu prontamente ao apoio de Passos Coelho. O homem que em tempos tinha dito que se não lhe dessem um tiro na cabeça iria para Belém, acaba de declarar que está vivo, não tem 100 anos, e portanto vai para Belém. Depois de Santana Lopes no sábado, agora com o avanço de Fernando Nobre, já temos assim dois candidatos presidenciais na mesma semana, ambos carinhosamente apoiados por Passos Coelho. Não há dúvida de que estas presidenciais prometem.

 

Entretanto, para aumentar a confusão, Passos Coelho acaba de declarar que espera que os candidatos se assumam, não exclui que possa surgir mais do que um à direita, e propõe que o PSD fique à espera um ano sem decidir quem apoia. A este ritmo, daqui a um ano já teremos perdido a conta aos inúmeros candidatos presidenciais do PSD. Será que a estratégia TMMRS também passa por deixar António Guterres chegar a presidente?

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publicado por Luís Menezes Leitão às 06:40

O candidato.

Sábado, 19.07.14

 

Resulta claramente desta entrevista que Santana Lopes não pensa noutra coisa a não ser em candidatar-se a Belém, no que parece ter pelo menos o ámen de Passos Coelho, que continua a apostar teimosamente na estratégia TMMRS (Todos menos Marcelo Rebelo De Sousa). Neste enquadramento, o lugar de Provedor da Santa Casa da Misericórdia, que misericordiosamente foi atribuído a Santana, seria apenas um estágio para que ele pudesse adquirir uma imagem de simpatia social, após o que transitaria para Belém. Claro que Passos Coelho preferiria Durão Barroso, mas não estando este disponível, prefere naturalmente apostar em Santana do que deixar Marcelo avançar.

 

A questão é que esta estratégia foi claramente posta em causa pelo avanço de António Guterres. Efectivamente António Guterres secou completamente o espaço à esquerda, tanto assim que António Costa, mal soube desse avanço, mergulhou logo nas absurdas primárias do PS em vez de se guardar para Belém. Neste espaço apenas Marinho Pinto pode conservar algum eleitorado, se conseguir manter o seu discurso populista e contra a classe política, que tantos votos lhe trouxe nas europeias. Já os candidatos da esquerda tradicional cederão naturalmente o lugar a António Guterres.

 

A questão é que António Guterres entra também muito no eleitorado da direita, com o seu catolicismo social e com o facto de ter sempre resistido a entrar nas questões fracturantes, em que o PS se fracturou logo após a sua saída. É por isso que na área da direita só alguém com o perfil de Marcelo Rebelo de Sousa lhe poderia dar alguma luta. Durão Barroso percebeu isso e afastou-se logo da corrida presidencial. Já Santana Lopes, pelo contrário, acha que Guterres "não é imbatível" e que até seria "altamente estimulante" enfrentá-lo.

 

Santana Lopes tem um problema com as eleições presidenciais, semelhante à percepção que ele tem do seu governo, e que ele próprio quis expor no seu livro de 2004, et pour cause chamado Percepções e Realidade, na altura objecto destes dois fabulosos sketches dos Gato Fedorento. Na sua percepção, o seu governo foi óptimo e foi uma grande injustiça ter sido derrubado por Jorge Sampaio. A realidade é que o seu governo foi o pior da história da democracia portuguesa, e se há alguma coisa a censurar a Sampaio — e a Durão Barroso — foi precisamente o terem permitido que ele tomasse posse. Já em relação às presidenciais, ele tem a percepção de que, passados dez anos do seu governo, e com o seu currículo na Santa Casa, tem condições de bater Guterres nas eleições. A realidade é, no entanto, que nem com mais cem anos na Santa Casa Santana conseguiria ultrapassar Guterres na área social, e que tem tantas hipóteses de ser eleito presidente como a torre Eiffel de dançar o samba. Mas, conhecendo a teimosia de Passos Coelho, é muito provável que venha a ser ele o candidato presidencial do PSD. 

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publicado por Luís Menezes Leitão às 13:03

A guerra civil ucraniana.

Sexta-feira, 18.07.14

 

É extraordinário que se insista em não ver o que é há muito tempo óbvio: a Ucrânia está numa situação de guerra civil, com combates sem tréguas entre as forças governamentais e os rebeldes russos. Nos últimos tempos tornou-se claro que as ambições terrritoriais russas se limitavam à Crimeia, pelo que uma vez conquistada esta, Putin deixou de se interessar por uma intervenção militar na Ucrânia, tendo inclusivamente pedido ao Parlamento a anulação da autorização para esse efeito. Tal não significa, no entanto, ao contrário do que inicialmente julgou Poroshenko — e que o levou a desencadear uma ofensiva militar — que tivesse decidido abandonar os rebeldes russos à sua sorte. Na verdade, o que o abate do avião malaio demonstra é que Putin está a armar os rebeldes russos na Ucrânia. Efectivamente, mísseis terra-ar não se compram num supermercado, pelo que, quando estão na mão de rebeldes, significa que há um país estrangeiro que lhes está a fornecer armas, neste caso obviamente a Rússia. A Rússia parece assim querer repetir na Ucrânia a estratégia dos EUA no Afeganistão após a invasão soviética. Formalmente não se envolveram no conflito, mas foram armando até aos dentes os militantes mujahidin, levando a que a URSS acabasse por decidir sair do Afeganistão. O problema dessa estratégia é que a guerra fica sem uma estrutura de comando definida, tornando-se muito mais brutal, com consequências imprevisíveis. O Afeganistão acabou por se transformar num Estado taliban, que deu apoio ao ataque de Bin Laden aos EUA. Se na Ucrânia já se chega ao ponto de abater aviões civis, imagine-se o estado em que o país vai ficar se esta deriva continuar. E com a sua importância estratégica para o transporte de gás à Europa, bem podem os europeus literalmente ficar arrepiados com o que se seguirá.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 07:30

As primárias do PS

Quarta-feira, 16.07.14

 

Leio aqui que a inscrição de simpatizantes para votar nas primárias do PS está a ter uma adesão que supera todas as expectativas. Vamos ter, portanto, um sucesso estrondoso na adesão popular a essas eleições primárias, havendo imensos interessados em se declarar desde já como simpatizantes do PS. Segundo as últimas informações disponíveis, até o Jacinto Leite Capelo Rego já se inscreveu.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 11:18

A angústia do guarda-redes antes do penalty.

Quinta-feira, 10.07.14

 

"A angústia do guarda-redes antes do penalty" (Die Angst des Tormanns beim Elfmeter) constitui um magnífico livro de Peter Handke, que serviu de guião a um filme de Wim Wenders. O livro retrata o drama de um canalizador, antigo guarda-redes, que fica desempregado, sendo que o desespero causado pela situação o leva a cometer um crime. Neste âmbito a descrição da sua habitual angústia antes do penalty corresponde a uma metáfora da vida. O guarda-redes não sabe para onde vai ser dirigido o remate mas, pelo que conhece do jogador, atira-se para onde espera que ele remate. Mas fica-lhe sempre a angústia: e se ele desta vez remata para outro lado? Da mesma forma, a vida faz-nos muitas vezes surgir situações que não esperamos, e com as quais por vezes não conseguimos lidar.

 

Quando li este livro há muitos anos sempre pensei que havia um erro de perspectiva: o guarda-redes não tem qualquer angústia antes do penalty, pois ninguém está à espera que ele defenda. Por isso, se não defender, ninguém o acusa de nada. Se defender, é um herói para todos. A angústia é toda do marcador, uma vez que é ele que sabe que todos o crucificarão se não conseguir marcar o penalty. Por isso, o marcador tem uma tarefa dificílima de marcar com precisão e ao mesmo tempo enganar o guarda-redes, dissimulando o sítio para onde vai rematar.

 

As circunstâncias fizeram, no entanto, com que ontem no Argentina-Holanda existisse uma verdadeira angústia do guarda-redes antes do penalty. É que, no jogo anterior com a Costa Rica, o treinador holandês, Van Gaal, decidiu substituir no último minuto de jogo o guarda-redes habitual, Jasper Cillessen, pelo seu suplente, Tim Krull, um especialista na defesa de penalties. Tim Krull desempenhou a tarefa na perfeição, ocupando totalmente a baliza e enervando os marcadores, o que apurou a Holanda perante uma Costa Rica que me pareceu mais forte. Mas, ao que consta, Jasper Cillessen ficou furioso, pois não tinha sido previamente avisado dessa estratégia.

 

Talvez por esse motivo, num jogo que me pareceu que estava fadado para ser decidido por penalties desde o primeiro minuto, Van Gaal deixou esgotar as substituições, pelo que acabou por ser Cillessen a defender os penalties. É verdade que o mesmo tinha feito uma extraordinária exibição durante o jogo, mas notou-se claramente que acusou o peso de ter que defender os penalties, uma área em que manifestamente não é especialista. Duas vezes se atirou para o lugar certo e das duas não conseguiu segurar a bola, sendo então o útimo remate um frango monumental.

 

Daqui fica demonstrado como Van Gaal errou ao não substituir outra vez o seu guarda-redes, que sabia perfeitamente não estar vocacionado para defender penalties. Em A Arte da Guerra, Sun-Tzu escreveu: "Se conheces o teu inimigo e te conheces a ti mesmo, se tiveres cem combates a travar, cem vezes serás vitorioso. Se ignoras o teu inimigo e te conheces a ti mesmo, as tuas chances de perder e de ganhar serão idênticas. Se ignoras ao mesmo tempo o teu inimigo e a ti mesmo, só contarás os teus combates por derrotas".

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publicado por Luís Menezes Leitão às 07:47

O princípio de Peter.

Quarta-feira, 09.07.14

 

 

Há um princípio que tem vindo a ser defendido na ciência da administração, denominado o princípio de Peter, que procura explicar porque é que as coisas correm sempre mal. Segundo o mesmo, nas organizações as pessoas vão sendo sempre promovidas até atingirem uma função para a qual são absolutamente incompetentes. A partir daí deixam de ser promovidas, pelo que normalmente passarão a vida toda nessa função, que não são manifestamente capazes de desempenhar. A menos que aconteça um descalabro que demonstre essa absoluta incompetência, caso em que terão de ser demitidas.

 

O princípio de Peter explica o que se passou ontem com a selecção do Brasil. Desde o jogo inaugural com a Croácia que se percebia que a equipa do Brasil era fraquíssima, e nem o talento de Neymar permitia elidir essa conclusão óbvia. No entanto, era manifesto que o Brasil estava a ser levado ao colo pelos árbitros, como demonstrou no jogo inaugural o árbitro japonês que inventou um penalty absolutamente inexistente, levando a que os próprios brasileiros, com o humor que os caracteriza, o tivessem qualificado como o melhor jogador do Brasil em campo. E a verdade é que depois do jogo inaugural, a selecção brasileira não conseguiu convencer em jogo nenhum, ainda que tenha sempre passado à fase seguinte. Por isso, a qualquer altura poderia chegar a hora da verdade, como ocorreu ontem, com a selecção brasileira a ser absolutamente triturada pela Alemanha, sem conseguir esboçar uma única reacção que se visse. Se o Brasil não tivesse chegado tão longe, nunca teria tido um resultado tão humilhante.

 

O que é curioso é que no Brasil os resultados do futebol costumam contar para a avaliação do mandato presidencial. Dilma Rousseff anunciou há quatro dias a sua recandidatura ao mandato presidencial, mesmo no fim do prazo. Pois eu acho que ontem ela acabou de perder as eleições.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 12:52


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