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O Munique ucraniano.

Segunda-feira, 16.02.15

Se há uma coisa que me deixa estupefacto é que como é que na União Europeia ninguém é responsabilizado pelo desastre a que conduzem políticas completamente disparatadas que os órgãos da União seguem acriticamente por pressão alemã com os resultados que estão à vista. Basta pensar que em Novembro de 2013 a Ucrânia era um estado democrático, que servia de tampão entre a Rússia e a União Europeia. Dividido entre uma zona ocidental, pró-europeia, e uma zona oriental, russófona, por vezes as eleições eram ganhas por um lado e outras vezes pelo outro, coisa que não perturbava o país, uma vez que os derrotados nessa eleição podiam calmamente esperar pela eleição seguinte.

 

A coisa mudou brutalmente em Novembro de 2013 quando uma manifestação ultra-nacionalista na Praça Maidan decidiu contestar a política do Presidente Ianukovich, eleito pelo Leste, e a sua recusa em assinar um acordo de associação com a União Europeia. Estranhamente a manifestação foi prontamente apoiada pela União Europeia, que não descansou enquanto não viu Ianukovich derrubado e em fuga, tendo rapidamente assinado o acordo de associação com o governo surgido da praça, cujo primeiro acto tinha sido proibir a língua russa no país. Acho que nenhum político europeu no seu juízo perfeito seria capaz de um disparate destes, mas na União Europeia há muito que o juízo anda a faltar

 

Como é óbvio, a Rússia não se ficou e anexou a Crimeia, vital para a sua frota do Mar Negro, e com uma esmagadora maioria de russos, e deu claro apoio às pretensões independentistas de Donetsk e Lugansk. O resultado foi uma violenta guerra civil na Ucrânia, e que nem uma tentativa de retorno à ordem constitucional, com a eleição de Poroshenko, conseguiu travar. Na verdade o Leste já não conseguiu participar nessa eleição e a tentativa de Poroshenko de submeter os rebeldes pela força das armas saudou-se num evidente fiasco para o desmoralizado exército.

 

O resultado foi este novo "acordo de Munique", agora em Minsk, que Merkel e Hollande, juntamente com Poroshenko, celebraram com Putin. Putin vence em toda a linha. A Ucrânia é obrigada a reconhecer a autonomia de Donetsk e Lugansk, incluindo a possibilidade de as mesmas terem relações directas com a Rússia. Estas regiões conservam os seus exércitos, já que só os combatentes estrangeiros devem abandonar a Ucrânia. E o exército ucraniano só voltará a ter controlo das suas fronteiras quando a Ucrânia alterar a sua constituição, reconhecendo a autonomia dessas regiões. Donetsk e Lugansk passaram assim a ter o mesmo estatuto da Ossétia do Sul e da Abkházia na Geórgia, sabendo-se que qualquer tentativa da Ucrânia para alterar o seu estatuto desencadeará uma intervenção semelhante à que a Rússia teve na Geórgia em 2008. Confesso que não acredito que Poroshenko consiga impor este acordo ao Parlamento ucraniano, pelo que só com uma ditadura na Ucrânia o acordo será respeitado. E duvido ainda mais que os rebeldes russófonos se fiquem, depois da vitória colossal que agora obtiveram, sabendo-se que agora basta um pequeno passo para ligar a sua região à Crimeia anexada pela Rússia. 

Em Munique Chamberlain também voltou para casa com um pedaço de papel que representava uma derrota colossal face a Hitler. Quando se viu o disparate que isso tinha sido, foi rapidamente substituído por Churchill. Merkel e Hollande também foram a Minsk, não sabe com que estatuto, mas obviamente em representação da União Europeia. Depois do resultado desastroso que trouxeram, não haverá condições para a União Europeia mudar estes protagonistas?

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publicado por Luís Menezes Leitão às 12:25





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