Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Em Portugal a culpa morre sempre solteira.

Segunda-feira, 19.06.17

Se há alguma coisa que caracteriza Portugal é o facto de neste país a culpa morrer sempre solteira. Não é por isso de estranhar que, perante a tragédia de Pedrógão Grande, o Presidente diga que se fez "o máximo que se poderia ter feito" e que "não era possível fazer mais". Em Portugal nunca é possível fazer nada para prevenir tragédias e por isso não vale a pena procurar responsáveis. Se uma ponte cair em Portugal, matando 59 pessoas, a culpa nunca é de quem tirou abusivamente areia do rio junto à ponte, de quem não vigiou o estado da ponte, ou de quem não ordenou a sua reparação, apesar de ter sido avisado para o efeito. Não! A culpa é de o leito do rio estar demasiado baixo e de ter ocorrido uma cheia grande.

 

Da mesma forma, se um incêndio em Pedrógão Grande matar 62 pessoas, sendo que algumas delas morreram presas numa estrada, a culpa não é de quem não tomou providências perante o alastrar da tragédia, designadamente cortando a estrada. Não, a culpa é do raio que destruiu a árvore seca, causando o incêndio. Que em pleno séc. XXI, com os meios de vigilância por satélite que existem, um raio seja susceptível de causar tantos danos, é algo que não impressiona. As tragédias são sempre inevitáveis, e só nos resta aguardar que não venha outra ainda pior.

 

É por isso que ao contrário do Rui Rocha, eu só posso aplaudir as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa. Afinal de contas, há que salvaguardar a estabilidade política a todo o custo. Não nos devemos esquecer de que há 16 anos houve um Ministro que, perante a tragédia de Entre-os-Rios, teve o acto impensado de se demitir. Felizmente que desta vez estamos livres de que aconteça algo semelhante. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Luís Menezes Leitão às 08:15

Helmut Kohl (1930-2017)

Sexta-feira, 16.06.17

Depois de Bismarck, Helmut Kohl é seguramente o maior estadista da história alemã. Recebu um país dividido em dois pela cortina de ferro, com a metade ocidental ainda a expiar a culpa do nazismo, e começou pacientemente a reerguer a Alemanha. Primeiro declarou que a Alemanha ia abandonar a tradicional expiação colectiva, indicando o seu próprio caso pessoal: "Eu tinha 15 anos quando a guerra acabou. Não tenho culpa nenhuma do que se passou lá". Depois foi o primeiro a exigir, após a queda do Muro de Berlim, a imediata reunificação da Alemanha. Enquanto os outros políticos alemães falavam nessa possibilidade como um cenário a longo prazo, e os restantes países europeus o viam como um simples cenário de pesadelo, Kohl exigia uma reunificação imediata. Para a obter, pagou tudo o que lhe pediram por ela. Primeiro, aceitou converter o marco DDR numa paridade 1:1 com o Deutsche Mark, o que fez aumentar enormemente o custo da reunificação. Depois aceitou abandonar o próprio marco a troco do euro, o preço que os parceiros europeus lhe pediram para não se oporem à reunificação, julgando que assim controlavam a Alemanha. Mas o homem que quando atravessou pela primeira vez o muro, proclamou perante a porta de Brandenburgo: "Este é o dia mais feliz da minha vida!", tudo aceitou para devolver à Alemanha o lugar que entendia lhe ser devido na Europa. O estado actual do seu país demonstra bem como ganhou a aposta.

 

Mas Helmut Kohl não era apenas grande em dimensão política, era-o também no excesso de peso que o atormentava, o que encarava com bonomia. Era obrigado a passar as férias de Verão numa clínica de emagrecimento e ao longo do ano ia vestindo fatos de dois tamanhos, um para a altura em que tinha saído da clínica, e outro para quando se aproximava a altura de lá regressar. O seu apetite incontrolável levou a uma história curiosa: Uma vez o seu adversário político Oskar Lafontaine foi atacado por uma louca que o tentou degolar, só por milímetros não lhe atingindo a carótida. Kohl foi informado dessa notícia quando acabava de sair do restaurante onde jantara. A perturbação foi tanta que teve uma quebra de tensão. Como resolveu o problema? Voltou para o restaurante e jantou outra vez.

 

Ironicamente, comentava-se sobre ele que era preferível ter um chanceler alemão que acordava de noite com vontade de assaltar o frigorífico do que de invadir os países vizinhos. Mas essa petite histoire não ficará para a História. Essa só recordará o homem que, através da reunificação alemã, inscreveu o seu nome em letras de ouro na História da Alemanha.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Luís Menezes Leitão às 20:49

Jogar e perder.

Sexta-feira, 09.06.17

Não há jogadas seguras em política. Uma eleição nunca está garantida, pois depende de factores imprevisíveis, como na teoria do caos em que a borboleta que bate as asas em Pequim provoca um temporal em Nova Iorque.

 

Theresa May, perante as dificuldades políticas do Labour de Jeremy Corbyn, julgou que poderia calmamente convocar eleições, e ter uma maioria que lhe garantisse um mandato forte para as negociações de um "hard Brexit". Mas a verdade é que não se pode vender a pele do urso antes de o ter morto, e Corbyn revelou-se um osso muito duro de roer na campanha, apostando em cumprir o slogan que imediatamente surgiu: "Let's make June the end of May". Por outro lado, Theresa May mostrou uma absoluta incompetência política, ameaçando os ingleses com mais impostos, como o "imposto sobre a demência", a fazer lembrar o poll tax que precisamente deitou abaixo Thatcher. Desde Mondale que se sabe que em eleições não se anunciam novos impostos e ponto final.

 

E agora? Dificilmente May continuará a liderar o governo, e mesmo que os conservadores continuem no poder, o Brexit pode tornar-se tão soft que ninguém dê por ele. E nem é de excluir a hipótese de Corbyn conseguir imitar António Costa e montar uma geringonça no Reino Unido, para fazer também as reversões prometidas, como a renacionalização dos transportes. Aconteça o que acontecer, o Reino Unido está metido num grande sarilho. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Luís Menezes Leitão às 06:32

Recordação de Timor-Leste.

Quarta-feira, 07.06.17

Estive em Timor-Leste em 2000, no ano seguinte ao referendo, a fazer uma formação aos magistrados timorentes. Nessa altura encontrei a cidade de Dili completamente destruída, praticamente sem nenhum edifício de pé, dando a perceber a violência que ali tinha ocorrido. Na altura visitei ainda Baucau, Liquiçá e Ermera, e senti sempre uma profunda vergonha pela actuação dos portugueses nos diversos momentos da nossa história recente com Timor-Leste. Olhei para a ilhota de Ataúro e não percebi como foi possível em 1975 um governador português ir refugiar-se ali, deixando o território a ferro e fogo. Pensei na campanha do Lusitânea Expresso e questionei-me que sentido fez mandar um barco para ali para dar de frosques ao primeiro aviso da marinha indonésia. E finalmente, fiquei a pensar como foi possível organizar um referendo sem as mínimas condições de segurança, permitindo que meia dúzia de milícias mais uma vez dessem cabo daquilo tudo. Como um timorense me disse, num português de que ainda se lembrava, quando olhei para a destruição: "Os gajos ficaram zangados com o resultado da nossa votação".

 

Se há coisa que era visível em 1999, mesmo a partir de Lisboa, era o pânico que essas milícias tinham causado a quem lá estava. Como é óbvio, os membros da delegação portuguesa só pediam que os tirassem de lá rapidamente e mesmo os jornalistas faziam directos a solicitar exactamente a mesma coisa. Ana Gomes, a partir de Jacarta, respondeu-lhes uma vez em directo: "Os senhores sabiam que não vinham para Cacilhas". E, de facto, mais uma vez toda a gente debandou e teve que ser uma força australiana, vinda de Darwin, a meter na ordem aqueles arruaceiros. Lembro-me de ter visto pela televisão um australiano a dizer: "Os portugueses criam sempre estes sarilhos e nós é que temos que ir apagar os fogos em vez deles".

 

Não tenho por isso pena nenhuma de que o indigitado chefe das secretas tenha tido que renunciar por causa do que aconteceu em Timor-Leste. Se já vai tarde a assunção de responsabilidades pelo que aconteceu naquela altura, mais vale tarde do que nunca. António Costa, que lhe deu total cobertura política num assunto muito sério, bem podia aprender a lição.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Luís Menezes Leitão às 18:31








comentários recentes

  • ANTONIO

    E DIGO SO NESTAS ALTURAS APARECE OS ESPERTOS A FAZ...

  • SerranoOnline

    Começo por aplaudir o post que considero ser dos m...

  • Herói do Mar

    João Ferreira Dias escreveu: "Porque o anterior Pr...

  • Anónimo

    O ministro da Agricultura já Foi Ministro da Mesma...

  • Makiavel

    "E finalmente, fiquei a pensar como foi possível o...

  • HD

    Já nem percebe nada desta parceria conveniente :)

  • Rui Pinto

    Serviços públicos? Li hoje a Lei n.º 42/2012, de 2...

  • zé pagante

    Luís Menezes Leitão, o Papa Francisco pediu amnist...

  • Anónimo

    Acho interessante que esteja toda a gente contra a...

  • Anónimo

    Pois acho que sim. Os muçulmanos, Hindus, Budistas...




subscrever feeds