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O país no pântano.

Segunda-feira, 14.03.11

 

 

Ao contrário de António Guterres, que se demitiu para o país não cair no pântano, José Sócrates não tem qualquer problema em fazer Portugal cair no pântano juntamente com o seu Governo, desde que com ele arraste também os partidos da oposição de centro-direita e até o Presidente da República. Esta é uma estratégia perfeitamente coerente, que tem vindo a ser seguida com enorme eficácia, e que mais uma vez o foi na sexta-feira passada. Mas isto foi potenciado por gritantes erros estratégicos da oposição, que se deixou completamente encostar às cordas por alguém que, com bem dizem os americanos, joga boxe sem luvas, ou seja, joga duro.

 

Como já aqui escrevi, era manifesto que a moção de censura do Bloco de Esquerda surgia num timing perfeito, nas vésperas do Conselho Europeu e da manifestação da geração à rasca e tinha um grande potencial para atingir não apenas o Governo mas também os partidos de centro-direita. Estes, não estando em condições de a aprovar, deveriam ter-se limitado a dizer que havia todas as razões para censurar o Governo, mas que se abstinham por ainda haver que aguardar pela execução orçamental, não excluindo nova moção a muito curto prazo. Optaram, no entanto, por ridicularizar a iniciativa, perante um Sócrates deliciado que não se cansava de repetir: "Se é isso que pensam da moção de censura, por que é que se abstêm e não votam contra?". De facto, abstiveram-se, mas como também já aqui escrevi, com isso os partidos de centro-direita hipotecaram a figura da moção de censura e teriam enormes custos políticos se agora a fossem apresentar eles próprios.

 

Ora, Sócrates percebeu isso perfeitamente, pelo que achou que era o timing ideal para colocar em cheque a oposição de centro-direita, anunciando um PEC IV ainda mais draconiano que o anterior. Ao contrário do que ingenuamente disse ontem Marcelo Rebelo de Sousa não se tratou de lapso algum da sua parte, mas antes de um ataque claríssimo e muito bem pensado aos partidos de centro-direita, que Sócrates quer responsabilizar pelo falhanço evidente da sua estratégia de consolidação orçamental. E a oposição de centro-direita ficou de facto encurralada. Passos Coelho foi colocado na posição do avalista, que perante os credores recusa o quarto aval, depois de já ter dado três avales anteriores, apenas por não ter sido avisado previamente desta vez, mas obviamente não se conseguiu comprometer com uma moção de censura. E Paulo Portas, depois do disparate da "moção de ternura", ensaiou ontem uma estratégia de fuga para a frente, propondo na Assembleia uma resolução sobre o PEC IV. Só que, não sendo a resolução um acto legislativo, não terá eficácia prática nenhuma, e José Sócrates mais uma vez se rirá dela, dizendo que não é o momento para discutir o PEC IV, e se quiserem censurar a política do Governo apresentem mas é uma moção de censura. E isso os partidos de centro-direita não parecem dispostos a fazer.

 

E assim tudo ficará no pântano até à discussão do Orçamento para 2012, que finalmente os partidos da oposição de centro-direita poderão rejeitar. Mas mesmo nessa altura não é seguro que tal implique a queda do Governo pois, ao contrário do que ameaçou no ano anterior, Sócrates é muito capaz de vir dizer desta vez que vai continuar a governar por duodécimos. Desculpar-se-á, no entanto, dizendo que já não pode evitar a bancarrota, pois foi a oposição de centro-direita que não o deixou prosseguir a estratégia de consolidação orçamental que vinha aplicando. E o país continuará assim neste pântano político, sem solução à vista até 2013.

 

Há quem já tenha percebido isto e venha agora apelar ao Presidente da República para que seja ele a assumir a responsabilidade de dissolver o Parlamento e provocar novas eleições. Só que Cavaco Silva não é Jorge Sampaio. Pode fazer discursos políticos muito duros para o Governo, mas não vai querer assumir o ónus de ser ele a provocar a crise política, podendo ser acusado de estar a ajudar o seu partido de origem. Não vale a pena ninguém esperar de Cavaco essa iniciativa. 

 

Já também aqui e aqui escrevi desde o início contra a viabilização de qualquer PEC e disse que quando alguém se coloca na posição de avalista não pode esperar deixar de ser responsabilizado quando chegar a hora de pagar a factura. Por muitos custos políticos que tenha para o PSD e para o CDS a apresentação de uma moção de censura neste momento, dias depois de terem reprovado outra, acho que é altura de esses custos serem assumidos. Iniciativas platónicas como a apresentação de resoluções sobre o PEC IV só contribuem para enredar ainda mais o país neste pântano. E como se viu nas ruas no sábado passado, há muita gente a ficar impaciente com esta situação.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 11:01








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