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O apelo de Soares à intervenção de Cavaco.

Terça-feira, 22.03.11

 

Percebendo que desta vez os partidos de oposição atingiram o ponto de saturação perante a constante chantagem política do Governo, os socialistas multiplicam-se agora em apelos à intervenção de Cavaco Silva, esperando que seja ele a tirá-los do sarilho em que se meteram, depois de o terem ostensivamente ignorado aquando da apresentação do PEC 4. O principal arauto deste coro é Mário Soares que, em artigo de opinião hoje publicado, entendeu fazer um "apelo angustiado" à intervenção de Cavaco.

 

Mário Soares inicia o seu o artigo a falar das catástrofes humanitárias que a Cimeira Europeia terá que debater, tais como "a tragédia que vive o Japão (…) depois do sismo e do tsunami que arrasaram cidades inteiras e dos perigos subsequentes, resultantes da proliferação das partículas nucleares, dada a explosão de várias centrais atómicas" e o "genocídio intolerável a que tem estado a ser sujeita a população da Líbia, pela acção do ditador Kadhafi e dos seus mercenários". E mais adiante acrescenta o drama profundo que atinge Portugal, seguramente comparável aos anteriores. É que cá "se desencadeou uma guerrilha partidária à portuguesa, que parece conduzir à queda do Governo e, portanto, a um vazio de poder, por dois ou três meses, precisamente quando o nosso próximo futuro se vai jogar. Com que autoridade, para negociar vantagens para Portugal, se irá apresentar em Bruxelas o primeiro-ministro português?". Ora, por aqui se vê como o país está de facto a atingir a catástrofe suprema, nestes tempos apocalípticos: há um bando de guerrilheiros partidários, que põem em causa a autoridade suprema do primeiro-ministro português.

 

Mas, no seu entender,  há um salvador, uma pessoa que "neste momento, tem possibilidade de intervir, ser ouvido e impedir a catástrofe anunciada: o Senhor Presidente da República. Tem ainda um ou dois dias para intervir. Conhece bem a realidade nacional e europeia e, ainda por cima, é economista. Por isso, não pode - nem deve - sacudir a água do capote e deixar correr". Na verdade, no entender de Mário Soares, o Presidente, até porque é economista, tem por função chamar os partidos a Belém ou enviar uma mensagem à Assembleia a apelar para esta se abster de derrubar o Governo. Acha de facto Mário Soares que alguma vez um Presidente da República pode intervir na responsabilização política do Governo por parte do Parlamento? Nem o próprio Mário Soares o fez quando, contra tudo o que se esperava, o primeiro Governo de Cavaco Silva foi derrubado pelo Parlamento.

 

Mário Soares termina o seu artigo a recomendar o novo livro de Stéphane Hessel, Engagez-vous, que traduz em português por "Empenhai-vos". E diz o seguinte: "Não basta que os cidadãos conscientes se indignem. É preciso mais: que se empenhem colectivamente". Mas isso é o que já tem acontecido sucessivamente aos cidadãos, em grande parte por acção deste Governo. Já estão todos colectivamente empenhados, pois o Governo não tem parado de empenhar o que tem e o que não tem, sujeitando os cidadãos a sacrifícios incomportáveis. E como bem disse Cavaco Silva no seu discurso de tomada de posse, há um limite para os sacrifícios que se podem pedir aos cidadãos.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 09:44








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