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O desacordo ortográfico

Sexta-feira, 30.09.11

 

Não resisto a entrar nesta polémica. Quando o acordo ortográfico foi assinado, estava previsto que só deveria entrar em vigor quando fosse ratificado por todos os Estados de língua oficial portuguesa. Quando se percebeu que isso não iria acontecer, decidiram os Estados que o ratificaram passar a aplicá-lo após três ratificações: as de Portugal, do Brasil e de Cabo Verde. Em consequência os outros países que falam português continuarão a escrever à moda antiga e a ortografia da língua portuguesa variará totalmente de país para país. Era difícil conceber disparate maior, que conseguisse causar mais dano ao papel da língua portuguesa no mundo.

 

Ao pretender erigir a pronúncia das palavras em critério decisivo, o acordo ortográfico esquece as raízes das palavras e as conexões entre elas, contribuindo para um enorme empobrecimento da nossa língua, para além de estimular a confusão entre palavras distintas. Para além disso, pretendendo seguir a pronúncia, adopta muitas vezes uma ortografia que com ela nada tem a ver.

 

Vejamos em primeiro lugar, a confusão entre palavras distintas. Assim, se "concepção" passar a "conceção", como a distinguimos de "concessão", acto de conceder? Se "recepção" passar a "receção", como distingui-la de "recessão", como a que atravessamos? E há casos de completa indistinção entre palavras diferentes. Um exemplo é "retractar" que, se passar a "retratar", passa a confundir-se com "tirar o retrato". Também "espectador", se passar a "espetador" pode confundir-se com "aquele que espeta".

 

Falemos, em segundo lugar, da perda de ligações entre as palavras: os habitantes do novo "Egito" continuam a ser os "egípcios", não tendo passado a ser os "egitenses".

 

Aponte-se, em terceiro lugar, o esquecimento das raízes das palavras. Muitas vezes na língua portuguesa existem versões erudita e popular da mesma expressão, como "ruptura", a partir do latim "ruptus", e "rotura", a partir do português "roto". Agora inventou-se uma terceira variante: a "rutura". Mas "ruto" não existe em português.

 

E finalmente, estabelece-se por vezes uma ortografia totalmente deslocada da pronúncia: "vêem" passa a "veem", "crêem" a "creem". Esta ortografia terá alguma coisa a ver com a pronúncia destas palavras em português?

 

Claro que os defensores do acordo ortográfico virão argumentar que também deixámos de escrever "pharmácia" e "philosophia". A meu ver, mal. O "ph" permitia descobrir imediatamente a origem grega dessas palavras. Cabe perguntar como é que o inglês conseguiu triunfar no mundo se continua a escrever "pharmacy" e "philosophy"?

 

Se Portugal quer de facto unificar a sua ortografia com o Brasil, diferenciando-se da escrita dos outros países de língua portuguesa, tem uma boa solução: adopte integralmente a norma brasileira. Este disparate é que não faz sentido nenhum.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 15:59


4 comentários

De AnimeCG a 01.10.2011 às 07:15

Olá!

Sou brasileiro e também não concordo com o "(des)Acordo Ortográfico", visto que não vejo cabimento a perda do trema (que, para nós faz sentido) assim como a perda do acento nos caso de ideia, coreia, boia (isto é uma afronta ao modo do brasileiro falar português).

Em relação ao hífen, nunca precisou haver um acordo, porque Portugal e Brasil nunca sofreram diferenças em relação a ele, então porque o alteraram?

Por fim, tome cuidado, já que "concepção" mantêm o P assim como "recepção"; no caso de "retratar" existe sentido na sua fala, contudo, a "ambigüidade" sempre existiu no português e creio que sempre existirá, já que a escrita nada mais é que a transcrição da fala - o que acontece é que pelo mito de que ambas possuem diferença, uma foi se distanciando da outra.

Acho que era somente isto.

P.s.: Não há norma mais correta que a outra e, antes que digas que Portugal possui direitos maiores sobre a língua visto ter sido ele o berço dela, digo para que olhes para os EUA e também para a Inglaterra: os estado-unidenses possuem todo um modo particular de falar e escrever, muitas vezes desobedecendo completamente a gramática, o que não acontece com os britânicos, que são fechados e procuram sempre seguir as normas.

A lingua é viva e alterações sempre acontecem. Sim! O inglês manteve sua escrita, contudo, sua pronúncia, principalmente nesta era globalizada, vem sofrendo cada vez mais alterações - já que, como língua mundial, cada povo dá seu toque "especial" de como pronunciá-lo, respeitando suas próprias limitações.

Soa preconceituoso quando você diz: "tem uma boa solução: ado(p)te integralmente a norma brasileira". Concordo que nós brasileiros detestamos o modo de falar dos portugueses - a pronúncia lusitana soa extremamente horrível aos nosso ouvidos assim como o próprio modo de escrever, visto que, enquanto dizemos "estamos andando" ou então "me passa o pão", vocês dizem "estou a andar" ou então "passe-me o pão" -, mas considere que são mais de quinhentos anos que nós não convivemos assim como há um oceano nos separando.

Concluindo este PS, quero deixar que Brasil e Portugal, apesar de serem tão diferentes, possuem uma grande história conjunta, sendo que, nas américas, o único país a já ter sido sede de uma capital "européia" foi o Brasil - 1808, quando a família real vêm fugindo do exército de Napoleão. Espero que esta amizade não se perca.

De Luís Menezes Leitão a 01.10.2011 às 09:10

Bom dia.

Concordo quase integralmente com o seu comentário, mas não tem razão quando diz que o "p" se mantém nas palavras "concepção" e "recepção". Isso de facto acontece no Brasil que continua a pronunciar o "p" nessas palavras, mas já não sucede em Portugal, que não as pronuncia. É por isso que falo em desacordo ortográfico.

Asseguro-lhe que não há qualquer preconceito da minha parte quando sugiro que Portugal adopte a norma brasileira. É que eu não tenho qualquer dificuldade em ler um texto escrito no português do Brasil, mas já tenho enormes dificuldades em ler um texto escrito no português do acordo ortográfico.

Quanto ao resto, espero que a amizade entre Portugal e o Brasil se mantenha, até porque sou um apaixonado pelo Brasil que procuro constantemente visitar. É por isso que acho que a nossa grande diferença não está na escrita: está precisamente na oralidade. É por isso que o acordo ortográfico não faz qualquer falta.

De Rogério Alexandre a 02.10.2011 às 21:49

Ola quando você refere : Concordo que nós brasileiros detestamos o modo de falar dos portugueses - a pronúncia lusitana soa extremamente horrível aos nosso ouvidos assim como o próprio modo de escrever, visto que, enquanto dizemos "estamos andando" ou então "me passa o pão", vocês dizem "estou a andar" ou então "passe-me o pão" -, mas considere que são mais de quinhentos anos que nós não convivemos assim como há um oceano nos separando.
Isso não confere a opinião da maioria dos brasileiros...e soa-me sim a preconceito...pois você diz que soa mal aos ouvidos...mas o facto de que quem fala mal são na generalidade os brasileiros...quando generalizam o uso dos verbos no gerúndio...basta prestar atenção nas outras línguas...no próprio Inglês que você refere...já para não dizer que o Brasil ainda não tem uma norma padrão ...pois dentro do Brasil existem uma série de variações...como direccionar o acordo ortográfico para Português Brasileiro se há dificuldades do Português Padrão no Brasil???Basta observar o falante do Nordeste ao falante do sul...pelas novas regras do plano curricular Nacional Brasileiro as diferenças devem ser consideradas no ensino da língua portuguesa...o que não se observa no acordo e torna-se contraditório...No próprio Brasil há preconceitos em relação as variações regionais aonde domina o português falado nos grandes centros como são Paulo e rio...
atenciosamente e é tudo por agora...

De AnimeCG a 03.10.2011 às 16:01

Desculpas pelo comentário - que, agora relendo vi que soou extremamente preconceituoso. Mas é como você mesmo diz: há preconceitos linguísticos mesmo nas variações da fala existentes no Brasil. Também concordo que nós não temos lá muito apreço pela língua - visto os vários erros gramaticais que cometemos no nosso dia a dia -, mas para isto existe uma explicação: a péssima educação pública que temos por aqui assim como a própria cultura - não é do brasileiro ler um livro por mês assim como os próprios estudantes reclamam quando têm que ler clássicos como Primo Basílio ou Dom Casmurro, já que, para eles, lhes parece outro idioma.

No Brasil temos sim uma norma padrão, contudo, concordo quando diz que "como pode haver um acordo sendo que em um dos Estados membros não há 'acordo' em relação a própria norma culta'?" Antes de parecer paradoxal, utilizo as mesmas palavras que você citou: as várias variações que há por aqui.

Por fim, isto foi mais de cunho político do que prático - não há um real porque de querer que ambos escrevam igual; antes, seria mais fácil dizer que, no Brasil o idioma é o Brasileiro, mas há especialistas que, por causa da "norma culta", há ainda pontos que não dão esse status.

Resumindo tudo: o (des)acordo ortográfico só é mesmo válido aos governos, editoras e "escritores" - entre aspas porque delimito somente aqueles que querem vender e não dão a miníma para sua língua mãe. Ao Brasil, Portugal aceitar o acordo é bom porque ele poderá, em fim, vender livros aos países de língua portuguesa mais pobres assim como poderá exportar "várias outras tralhas que há por aqui"; para Portugal a venda de livros se expandiria espantosamente - principalmente os clássicos e os acadêmicos - assim como poderia exportar mão de obra qualificada para cá - para que nós possamos manter o ritmo de crescimento sem tropeçarmos nas próprias pernas. Já no dia a dia se manterá tudo a mesma: o brasileiro ainda necessitará de um dicionário para entender um português e o português ainda ficará bravo com as várias piadas referes a ele e a Portugal.

P.s.: gosto muito de Portugal e sonho um dia em conhecer Lisboa. O comentário referente ao sotaque lusitano se remete justamente ao que eu ouvia na escola e não na academia - assim como ouvia também de nordestinos, paulistas e até mesmo estado-unidenses. Por fim e, mais uma vez, espero que ambos os países - não só os governos - possam se entender e ser, de fato, amigos, respeitando-se mutuamente.

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