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O Bloco de Esquerda.

Terça-feira, 21.08.12

 

 

Os tempos de crise que atravessamos podem bem conduzir a uma alteração radical no sistema partidário português, como já se verificou na Grécia e na Itália. É interessante por isso analisar o estado dos diversos partidos portugueses. Comecemos naturalmente pelo Bloco de Esquerda, face ao anúncio da saída de Francisco Louçã da sua liderança.

 

Para se perceber bem o Bloco de Esquerda é necessário recuar muito tempo atrás, aos inúmeros partidos de extrema-esquerda surgidos após o 25 de Abril. Na altura tínhamos entre muitos outros a UDP, o MRPP, a LCI, o PRT, o PRP-BR, o PCP-ML, a AOC, o MES, o POUS, o PST, etc, etc. Estes partidos abrangiam todas as correntes comunistas possíveis e imaginárias, desde estalinistas, maoistas, trotskistas, albaneses e outros. Unia-nos, no entanto, um ponto comum que era um ódio profundo ao PCP, porventura até maior que o que tinham à direita. O PCP era designado por social-fascista e objecto de ataques sistemáticos. O PCP-ML pretendia assegurar pelo próprio nome que o PCP já não era marxista-leninista. E ficou célebre um slogan da AOC que dizia que cada deputado que elegesse era uma espinha na garganta de Cunhal.

 

Desses partidos o único que tinha peso eleitoral era a UDP que, devido à concentração dos seus votos em Lisboa, elegia sistematicamente um deputado, primeiro Acácio Barreiros e depois Mário Tomé. No parlamento a UDP prosseguia ataques sistemáticos ao PCP, que designava por "o partido dito comunista", suscitando imediatamente protestos do mesmo. A certa altura chegou a anunciar a criação de um partido comunista reconstruído, primeiro PCP(R) e depois PC(R).

 

A partir de 1978 surge, no entanto, o PSR, a partir de uma fusão da LCI com o PRT, com cariz trotskista. O PSR chama a atenção pela qualidade dos seus tempos de antena, que apresentavam ideias distintas da banalidade geral. Quando tenta uma frente eleitoral com a UDP os resultados são desastrosos, pelo que o partido continua a concorrer autonomamente, beneficiando do brilhantismo de Francisco Louçã que, no entanto, nunca era eleito.

 

Francisco Louçã tem um enorme defeito. É inegavelmente um dos mais bem preparados líderes partidários, com uma grande bagagem cultural e uma enorme capacidade dialéctica, forjada por muitos anos de debates desde a mais tenra juventude. Talvez por isso mesmo só o vi baquear uma única vez perante um líder da direita, num debate com Durão Barroso, que tem a vantagem de ter andado pelas mesmas lides. A sua inteligência torna-o, porém, frio e distante dos eleitores, pelo que não consegue ter grande sucesso eleitoral. Em 1991 esteve a um passo de ser eleito para o parlamento. Bastava para isso convencer 1/5 dos eleitores da aldeia de D. Maria, uma terreola nos arredores de Lisboa que boicotou as eleições por não ter água canalizada, a votar nele. Louçã bem se deslocou a D. Maria, prometendo a partir do Parlamento resolver o assunto. Os eleitores, porém, mantiveram o boicote, confirmando a eleição do último deputado do PSD, que naturalmente se esteve nas tintas para a água de D. Maria. Nas eleições presidenciais a que concorreu, Louçã pôde confirmar que o seu peso eleitoral é reduzido.

 

O sucesso eleitoral do Bloco deve-se, por isso, essencialmente a um homem: Miguel Portas, que era tão inteligente como Louçã mas muito mais caloroso com os eleitores. A partir de três pequenos partidos, já que juntou a Política XXI de dissidentes do PCP, às tradicionais UDP e PSR, conseguiu nas eleições europeias de 1999 apresentar um projecto eleitoral consistente, falhando por pouco a eleição para deputado europeu. A partir daí estava feito o mais difícil. Nas eleições legislativas que se seguiram o Bloco obteve dois deputados, levando Francisco Louçã e Luís Fazenda a conseguir os lugares de deputados que há tantos anos ambicionavam. E os dez anos seguintes foram de crescimento sucessivo para o Bloco que capitalizava com os descontentes da ala esquerda do PS sem, porém, entrar minimamente no eleitorado do PCP, que nunca esqueceu a inimizade desde sempre existente.

 

As eleições de 2011 mostraram, porém, que o voto útil à esquerda é mortal para o Bloco, que se viu reduzido a metade dos deputados em virtude da ameaça de uma vitória do centro-direita. Ficou assim demonstrada uma grande permeabilidade entre a ala esquerda do PS e o Bloco, a qual aliás teve tradução no Parlamento com os deputados do Bloco a aderir em peso à intenção manifestada pelos deputados da ala esquerda do PS de suscitar a inconstitucionalidade do corte dos subsídios. Como não podia deixar de ser, o PCP ficou de fora da iniciativa.

 

Louçã percebeu por isso que os seus eleitores e até os seus deputados não resistiriam a uma aproximação ao PS, pelo que preferiu sair, alegando a necessidade de renovação, ainda que contraditoriamente aponte como sucessor alguém ainda mais velho. Sugeriu até uma liderança bicéfala, talvez a única maneira de satisfazer as contradições existentes no Bloco, o que só servirá para acentuar as mesmas. O Bloco de Esquerda corre assim o risco de se evaporar nos próximos tempos. O exemplo do PRD leva a pensar que os partidos que tentam entrar no quadro partidário surgido no 25 de Abril podem ter sucesso a princípio, mas esse sucesso é efémero.

 

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publicado por Luís Menezes Leitão às 21:40





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