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O 18 de Brumário de Cavaco Silva.

Quarta-feira, 10.07.13

 

Karl Marx inicia a sua obra O 18 de Brumário de Luís Bonaparte como uma frase que ficou célebre: "Em alguma passagem de suas obras, Hegel comenta que todos os grandes factos e todas as grandes personagens da história mundial são encenados, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa".

 

Foi esta a sensação com que fiquei quando assisti ao discurso de Cavaco Silva, que inverteu de um momento para o outro toda a sua prática presidencial. Curiosamente tinha-o precisamente criticado aqui pela total irrelevância com quem tem encarado o papel do Presidente no nosso sistema presidencial. Hoje, no entanto, pretendeu voltar a assumir protagonismo político, fazendo lembrar os tempos de Eanes, como quando este rejeitou o Governo Vítor Crespo. Mas, ao contrário de Eanes que, bem ou mal, decidia rápida e definitivamente, Cavaco apresenta uma proposta vaga que só conseguiu lançar ainda maior confusão no país. Receio que se tivesse usado a bomba atómica da dissolução da Assembleia da República os danos seriam menores. Para a história ficará um reforço do papel do Presidente, mas acho que o sistema político se pode desmoronar depois do verdadeiro golpe de Estado constitucional que acaba de ocorrer.

 

Do discurso de Cavaco resulta apenas uma decisão concreta: não aceita a recomposição do Governo. Devo dizer que tenho as maiores dúvidas sobre a viabilidade política desta recomposição, mas a verdade é que tinha sido aceite a nível europeu, pelo que é estranho que tenha sido rejeitada por Cavaco sem dar nenhum motivo concreto para tal. Não sei por isso se os motivos para esta rejeição são políticos ou pessoais. Sabendo-se que Cavaco não morre de amores por Portas desde os tempos de O Independente é muito provável que não visse com bons olhos o reforço do seu peso político.

 

A alternativa que Cavaco arranjou foi propor ao PS um acordo com o PSD e o CDS, dando-lhe em contrapartida a antecipação das eleições para daqui a um ano. Em primeiro lugar, não parece que compita ao Presidente propor acordos sem mandato dos partidos envolvidos. Cavaco reconhece aliás que o acordo é praticamente impossível pelo que se propõe arranjar uma personalidade de prestígio para fazer de mediador. Só que, além de tal representar um infantilização dos líderes partidários, resta saber como ficaria o país com um acordo obtido por essa personalidade de prestígio, que no entanto depois não seria Primeiro-Ministro. Estamos no domínio da pura ficção política, com a agravante de o Governo que existe ter ficado ferido de morte depois do discurso de Cavaco.

 

O acordo onde Cavaco vislumbra a salvação nacional, no entanto, só vigoraria por um ano já que depois os partidos iriam para eleições. E quals são os ministros disponíveis para ir para um Governo com um prazo de duração tão curto? E como é que se pode esperar que um Governo a prazo, em que os diversos partidos já pensam nas eleições, consiga fazer os cortes que a troika exige?

 

Cavaco quis repetir 35 anos depois a fórmula de Eanes de governos de iniciativa presidencial, que acabaram sempre em tragédia. No entanto, acho que só conseguiu propor uma solução muito pior do que a que já existia, atirando o país para uma verdadeira farsa. Isto não vai acabar bem. 

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publicado por Luís Menezes Leitão às 22:55





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