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A submissão do MRPP.

Terça-feira, 15.12.15

Num livro extraordinário denominado Soumission, Michel Houellebecq fantasia sobre as eleições presidenciais francesas de 2022, às quais concorreria Marine Le Pen, juntamente com os tradicionais candidatos socialista, republicano, mas também um candidato islâmico. Sucede, no entanto, que, devido à divisão dos candidatos tradicionais, quem vai à segunda volta com Marine Le Pen é precisamente o candidato islâmico, cujo programa é nem mais nem menos do que a islamização total da sociedade francesa. No entanto, os outros candidatos manifestam apoio ao candidato islâmico, preferindo-o a Marine Le Pen, e, mal se vê eleito, o candidato transforma a França num estado islâmico, abolindo o laicismo da república e determinando uma revolução nos costumes, que abrange até o vestuário das mulheres.

 

Quando li esse livro, achei a hipótese aterrorizadora, mas absurda. Afinal parece que não o é tanto, já que o MRRP, capitaneado pelo grande educador da classe operária, Arnaldo Matos manifestou apoio aos jihadistas de Paris. Segundo ele, foi "o imperialismo a causa real, verdadeira e única do ataque a Paris. Agora os franceses já sabem que a guerra de rapina movida pelo imperialismo francês em África e no Oriente Médio tem como consequência inevitável a generalização da guerra à própria França, à capital desse mesmo imperialismo moribundo". E acrescenta que "não só não foi um massacre, como foi um acto legítimo de guerra; não foi cometido por islamitas, mas por jiadistas, isto é, combatentes dos povos explorados e oprimidos pelo imperialismo, nomeadamente francês; e acima de tudo – coisa que estes revisionistas de pacotilha intentam ocultar – foi praticado por franceses, nascidos em França, vivendo em São Dinis e noutros bairros do Paris suburbano. Pois é, os combatentes de Paris não são islamitas estrangeiros; são irmãos de sangue do filósofo Alain Badiou e de outros ideólogos do Partido Comunista de França (marxista-leninista-maoista)".

 

Segundo Arnaldo Matos, "a lógica profunda do ataque a Paris não é o terror, não é o horror, não é a crueldade; a lógica é a lógica da guerra, dente por dente, olho por olho, até derrotar o inimigo. Terror, horror, crueldade são os ataques aéreos, de mísseis de cruzeiro, de artilharia, de drones, conduzidos pelo imperialismo, designadamente francês, sobre os homens, os velhos, as mulheres e as crianças das aldeias e das cidades de África e do Médio Oriente, para roubar-lhes o petróleo e as matérias-primas. Os atacantes de Paris nem chocolates roubaram: levaram a guerra aos franceses, apenas para acordá-los: para lembrar-lhes que o governo e as forças armadas do imperialismo francês estão, em nome da França e dos franceses que julgam ter o direito de se poderem divertir impunemente no Bataclan, a matar, a massacrar, a aterrorizar com crueldade inenarrável os povos do mundo".

 

Desde a queda de Garcia Pereira que o MRPP anda completamente à deriva. Agora Arnaldo Matos acha que os jihadistas e os proletários têm a mesma luta, e até sustenta que "os direitos do homem, os direitos humanos fundamentais são uma exigência do mercado capitalista, para poder explorar, sob uma cobertura jurídica, os operários. Os direitos humanos fundamentais são uma forma ideológica de dominação dos operários, porque respondem a uma necessidade do modelo económico hegemónico do capitalismo e tendem à reprodução desse modelo". Les beaux esprits se rencontrent.

 

Mas há uma coisa em que Arnaldo Matos tem razão. A lógica do ataque a Paris é a lógica da guerra. Ele e o MRPP escolheram um lado. Eu estou naturalmente do outro lado da trincheira.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 08:29





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