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Brincar com coisas sérias.

Domingo, 10.04.16

 

Em Portugal tem-se uma tendência irreprimível para brincar com coisas sérias, o que tem como efeito a sua banalização. Nesse âmbito não consigo conceber exercício mais disparatado do que o da Plataforma de Apoio aos Refugiados que lançou um programa para as crianças nas escolas dizerem se fossem refugiadas o que levariam nas mochilas. Para as crianças o exercício deve ser muito engraçado, já que, da mesma forma que brincam aos polícias e aos ladrões, também podem brincar aos refugiados. Duvido é que se aparecesse alguma criança no grupo que tivesse sido mesmo refugiada, ela achasse alguma graça a recordar essa sua experiência, ainda que a pretexto de uma brincadeira dos colegas.

 

Mas o assunto salta rapidamente das crianças para os adultos e então começam as figuras públicas também a brincar com a situação de refugiado. Mas o politicamente correcto impõe que se dê uma resposta correcta, sob pena de ser decretada uma espécie de morte civil nas redes sociais. Foi o que se passou a Joana Vasconcelos que respondeu que se fosse refugiada levava o iphone, o ipad e todas as suas jóias. Curiosamente não terá sido essa a sua intenção, mas até agora foi a personalidade que deu a resposta mais correcta. É que o que um refugiado deve levar consigo são bens de valor, dos quais naturalmente terá que se desfazer para chegar ao seu destino. Quem não se lembra do filme Casablanca, onde o Capitão Reynaud exigia aos refugiados dinheiro para lhes fornecer um visto, e se eles não o possuíam propunha-se dormir com as suas mulheres a troco daquela simples oportunidade de fugir, mas que para os refugiados era tudo? 

 Mas se toda a gente verberou Joana Vasconcelos, ninguém estranhou a resposta do presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que do assento etéreo onde subiu pode dizer os disparates que quiser, que ninguém liga absolutamente nenhuma. O que disse Marcelo? Que levaria alguns objectos de valor estimativo pessoal como fotografias, recordações de família. Levaria ainda uma Bíblia e um livro, possivelmente o Guerra e Paz, embora o Presidente também considere A Condição Humana, de Hannah Arendt, ou Ulisses, de James Joyce. Por último, o Presidente levaria ainda um telemóvel e carregador, já que o resto é supérfluo. Pelos vistos, o que deve ser essencial é transportar os quatro volumes da Guerra e Paz de Tolstoi pela zona de guerra, uma vez que a viagem é aborrecida, e nada melhor que uma obra sobre a guerra napoleónica na Rússia para estarmos entretidos na viagem. Esses livros também devem ser muito úteis para atravessar fronteiras, pois consta que os militares da zona andam ansiosos por ler e rapidamente deixariam passar um intelectual que trouxesse consigo obras clássicas tão interessantes.

 

Para um refugiado de guerra a sério, não interessa nada o que leva na sua mochila. Aliás normalmente nem tem tempo para a fazer, debaixo das bombas. O que lhe interessa mesmo é chegar a um lugar seguro, e ter-se colocado a si e aos seus a salvo da guerra. E quem tem que andar dias e dias em fuga só pode trazer consigo o essencial para sobreviver: água, comida, e eventualmente algum bem de valor com que possa pagar a viagem, uma vez que até a moeda do país deixa de valer nessas alturas. Alguém sabe que os traficantes cobram mil euros para fornecer a um refugiado um simples lugar num barco pneumático, que se pode virar à primeira onda, e onde naturalmente não entra qualquer mochila, pois nesse espaço entra outro refugiado? Há coisas dramáticas demais para que se queira brincar com elas.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 10:01





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