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Não só podemos como o fazemos.

Domingo, 01.02.15

Há graves erros nas análises de muitos comentadores sobre a nova realidade dos partidos extremistas que surgem na Europa. Em primeiro lugar, sustentaram que os partidos de protesto nunca chegariam a partidos de governo, uma vez que para o efeito teriam que moderar o seu discurso, em ordem a ser admitidos no arco da governação. Quando fracassou esta tese, com a retumbante vitória do Syriza na Grécia, começaram a defender que a chegada ao governo moderaria o extremismo desses partidos, confrontados com a dura realidade de não haver alternativa ao actual estado de coisas. Essa tese demonstra uma grave ignorância histórica: os partidos extremistas têm uma ideologia marcada, que querem a todo o custo aplicar quando chegam ao governo, sob pena de perderem a sua razão de existir. Foi assim com a revolução francesa, com a revolução russa, com todas as revoluções comunistas subsequentes e ainda com a ascensão dos regimes fascistas dos anos 30. Nesse aspecto, o velho slogan do Maio de 1968 "sejamos realistas: exijamos o impossível" é uma clara demonstração de que nem a mais dura realidade se consegue impor a uma ideologia forte.

 

A marcha do "Podemos" de ontem em Espanha não foi por isso um simples comício partidário, igual a tantos outros. Há ali um claro desafio ao actual regime espanhol, quer na bandeira republicana, sempre presente, quer na cor escolhida (o roxo) que falta na actual bandeira espanhola. Sabe-se, por outro lado, que o "Podemos" defende o referendo sobre a independência da Catalunha e a saída da Espanha da NATO, além de estar naturalmente contra a actual política europeia. Dificilmente assim o actual regime espanhol sobreviverá a um governo do "Podemos". O que obviamente é o que o "Podemos" mais deseja.

 

É por isso que acho completamente idiota esta frase de Mariano Rajoy de que os dirigentes do "Podemos" não passam de uns tristes. É com disparates destes que os partidos tradicionais estão a caminhar para o desastre. E provavelmente nem se aperceberão do que lhes vai acontecer.

 

 
 

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publicado por Luís Menezes Leitão às 07:09





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