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Obviamente, demita-se!

Segunda-feira, 05.10.15

António Costa parece ser o único que ainda não percebeu que a sua posição no PS se tornou absolutamente insustentável, depois da derrota de ontem. Efectivamente, numa noite em que, do PAF ao PAN, passando pelo BE e pela CDU, todos tiveram motivos para festejar, o PS foi o único derrotado da noite, tendo tido uma derrota colossal. António Costa deixou o partido totalmente estilhaçado e a claque que levou ao Altis para gritar "Costa! Costa!" não consegue iludir o estado calamitoso em que o PS se encontra no dia seguinte.

 

Tudo isto se deve à enorme irresponsabilidade de António Costa. Em primeiro lugar, António Costa nunca deveria ter derrubado António José Seguro, que estava a conseguir levar a água ao seu moinho, com duas sucessivas vitórias nas autárquicas e europeias. Só o fez porque Seguro não iria permitir a candidatura presidencial de José Sócrates, o que levou os socráticos a empurrar Costa para o derrubar. Era óbvio que estava tudo preparado para que Sócrates fosse ao congresso que aclamou Costa, onde seria entronizado candidato presidencial do PS.

 

Só que Sócrates foi preso na véspera, o que deixou António Costa sem candidato presidencial. António Costa não hesitou então em abandonar Sócrates à sua sorte e preferiu então apostar em Sampaio da Nóvoa como candidato, o que já demonstrava a radicalização do PS à esquerda, que sucessivas promessas de reverter todas as reformas do governo cada vez mais acentuavam. Com isto o eleitorado do centro, que tinha sido recuperado por Seguro, ia-se afastando sucessivamente do PS.

 

António Costa resolveu então guinar à direita, mas sem grande convicção. Para isso encomendou um programa a um grupo de economistas liberais, que pudesse funcionar como indicação do aval dos especialistas às propostas do PS. Só que foi ficando evidente em sucessivas entrevistas e debates, que António Costa nada percebia do programa, respondendo sempre com grande irritação às questões que sobre o mesmo lhe colocavam. Na entrevista a Vítor Gonçalves só faltou ameaçar espetar o programa na cara de quem duvidasse do que lá estava.

 

Como o eleitorado do centro manifestamente não aderia, António Costa voltou a guinar à esquerda. Proclamou o seu ódio eterno à "coligação de direita", ameaçando que não a deixaria governar, rejeitando o orçamento, ou formando mesmo um governo com os partidos da extrema esquerda. Obviamente estes agradeciam o favor, uma vez que, com a promessa desse governo, qualquer apelo ao voto útil da esquerda no PS deixava de fazer sentido. O eleitorado do centro é que cada vez se deslocava mais para a coligação, vendo com terror absoluto a hipótese de um governo chefiado por António Costa com Jerónimo de Sousa e Catarina Martins como vice-primeiros-ministros.

 

Perante este desastre, que todas as sondagens evidenciavam (e, diga-se de passagem, nem seria preciso nenhuma para o perceber) António Costa resolveu apelar à maioria absoluta (!!!) e ao voto útil, chegando o PS a proclamar que um voto na extrema-esquerda era um voto na coligação. Era difícil ter chegado mais longe no delírio político.

 

Na noite eleitoral, a extrema-esquerda cobrou a Costa as promessas da campanha, exigindo-lhe que os acompanhasse na votação de uma moção de rejeição ao programa do governo. Costa percebeu a armadilha em que se tinha deixado cair e deu o dito por não dito, dizendo agora que não alinhava em maiorias negativas e que o PS afinal era um partido responsável. Se tivesse dito isso na campanha, provavelmente não teria perdido tantos eleitores do centro e talvez tivesse conseguido algum voto útil à esquerda.

 

Depois deste absoluto desastre, António Costa aparece a proclamar: "Manifestamente não me demito!". Pois eu acho que o que no PS lhe deveriam dizer, parafraseando uma frase histórica era: "Obviamente, demita-se". Será que, tirando a claque que esteve ontem no Altis, alguém no PS duvida de que esta é a única solução aceitável?

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publicado por Luís Menezes Leitão às 09:04


19 comentários

De Anónimo a 05.10.2015 às 10:39

Honestamente acredito que depois da lição de ontem se o PS (e António Costa) não conseguem tirar as devidas conclusões, então estarão condenados a transformarem-se num partido de expressão irrelevante.

O "namoro" ocasional com a esquerda mais ideológica fez com que o PS entrasse no espaço do BE, e obviamente que perdeu para o BE -- partido de protesto e não de governo, e a continuar a não aprender as suas lições arrisca-se a ser gradualmente substituído pelos outros mais à esquerda (que afinal fazem melhor o papel do PS "de protesto" de Costa).

De Edgar a 05.10.2015 às 11:24

O grande problema é que temos eleições presidenciais daqui a pouco. Ou o PS arruma a casa em pouco tempo ou perde a oportunidade de ir fortalecido para as presidenciais.

De Anónimo a 05.10.2015 às 11:13

Pobre leitão, um dia terás o teu São Martinho. Não vês que 62% dos votos são dos que rejeitam as opções ideológicas da direita. De que tens medo ó leitão? Fica descansado que este povo é de brandos costumes e muito fácil de contentar: um naco de broa, uma sardinha, talvez duas e um copo de tinto, e tudo vai bem no reino de vossa majestade.

De Nicola Russell a 05.10.2015 às 13:35

"Não vês que 62% dos votos são dos que rejeitam as opções ideológicas da direita"

Mas pelos vistos também há 68 % que rejeitam as da esquerda. Just saying.
Se contas são contas então façmos as contas a todos.

Pessoas que votaram PS: 32,38 pessoas que não votaram PS: 67,62 Pessoas que votaram BE: 10,22 Pessoas que não votaram BE: 89,78 Pessoas que votaram CDU: 8,27 Pessoas que não votaram CDU: 91,73 etc

De Anónimo a 05.10.2015 às 14:53

Pessoas que votaram na coligação PàF 38,6% - pessoas que não votaram na PàF: 61,4%
o que quer dizer que 61,4% dos portugueses votaram em partidos da esquerda.

De Nicola Russell a 05.10.2015 às 17:18

E isso quer dizer o que, exatamente ? Que devia ganhar a esquerda embora o maior numero de votos ( numa so opção ) fosse para a direita?

e que tem em comum a esquerda do PS a do Bloco e a do CDU ?

Aparentemente nada, uma vez que não se uniram em altura nenhuma... querem agora, depois das eleições terminadas ? Não percebo... mas se calhar não é pra perceber.

De Anónimo a 06.10.2015 às 15:45

Eu não estou a afirmar que a esquerda deve governar, apenas estou a dizer que as contas que fez e que o levam a afirmar que 68% dos eleitores rejeitaram as opções ideológicas da esquerda estão totalmente erradas.
Eu sou a favor de mais pragmatismo e menos ideologia, o que interessa é governar bem, agora se é um partido da esquerda ou da direita...

De luis santos a 05.10.2015 às 14:14

AS VERDADES DOEM, NAO VALE A PENA ESCONDER O SOL COM A PENEIRA,TODA A GENTE SABIA E SENTIA QUE, COM O COSTA NAO SE VAI A LADO NENHUM. QUANDO NAO DERROTOU UMA COLIGAÇAO CHEIA DE DECISOES ANTI-VOTO, ESTAMOS CONVERSADOS.
ALIÁS, O BE CRESCEU À CUSTA DE MUITOS DESERTORES DO P.S.

PROXIMO !?.....

De Sérgio Pinto a 05.10.2015 às 14:34

62% dos votos são de pessoas que não conseguiram chegar a um concenso sobre que ideologia de esquerda escolher, se apoiar Costa e as suas políticas de direita com uma "graxa" aos que vivem do rendimento mínimo, apoiar o Jerónimo com o mesmo discurso desde o 25 de Abril completamente perdido no tempo, a Catarina que por ser tão radical nunca poderá ser governo já que na sua essência o BE é um partido para organizar protestos e dizer NÃO (com a excepção da legalização do canabis) ou votar em qualquer um dos outros partidos que não têm expressão.
Em cada 10 votantes , 4 votaram no actual governo, os outros 6 não se conseguiram entender. Conclusão: não há nenhuma alternativa credível neste momento.

De carlos antunes a 05.10.2015 às 14:36

sr. anónimo, vª excª está a responder a uma pessoa identificada, cobardemente remete-se a anónimo. Pois o tal povo que se contenta com uma sardinha e meia, é ele mesmo, que provavelmente o sustenta aÌ num JOB.......
a forma depreciativa como fala do povo portugues, leva-me a pensar que vª excª é um irudito ao nivel daqueles que chupam a têta por lamberem as botas aos tais...
respeitinho porque se calhar na sua geração anterior nem meia sardinha tinham, batiam ao portao à espera de esmola.
redima-se à sua insignificancia de cobarde aziado...e não se esqueça de pagar a prestação do mercedes a tempo e horas........

De xxpo a 06.10.2015 às 13:26

carlitos, vulgo Pamplinas, não insultes os teus concidadãos A mim também seria fácil mandar-te para...

De Ana Mateus a 05.10.2015 às 13:31

A leitura que faço de ontem é simplista, mas é a seguinte.

Os Portugueses não querem um governo de esquerda, mas não dão carta branca aos partidos da coligação. Governam mas têm de ouvir os outros. Quanto a Antonio Costa... Esta a pagar a sua extrema incompetência e a sua não demissão é a prova da sua birra. Enfim!

De Fersilva a 05.10.2015 às 13:51

Claro que à direita lhe apetece mais o Seguro, para se abster vigorosamente.
Não esquecer, a esquerda tem a maioria.

De Pedro Andrade a 05.10.2015 às 15:34

Errado. O centro direita tem uma enorme maioria de 80% dos deputados da assembleia. Já se esqueceram de que o PS pratica políticas de direita?

De Nevermind a 05.10.2015 às 14:41

Eu estou a ver o Costa chegar... Ele já sonha com uma desforra destas eleições e então está a apostar na queda, a muito curto prazo, do novo governo sem que o PS tenha tempo de fazer umas directas e o respectivo congresso para eleger um novo líder. "Não há tempo!" vai ele argumentar. Costa é um manhoso e sabendo que com uma maioria PSD/CDS ele nunca ia conseguir equilibrar-se durante 4 anos na liderança do PS, ainda para mais com umas presidenciais e autárquicas pelo meio, mas ele sabe que há uma pequena janela de oportunidade de chegar ao poder (isto é, julga ele...) através dumas eleições intercalares, mas lá ao fundo já se ouve o ruido do afiar das facas longas...

De Hybris a 05.10.2015 às 14:55

Costa pretende elevar-se a expoente relevante do cinismo político sem ter a arte de Diógenes para superar o trauma do assassinato político de Seguro.

Um comediante de 5ª categoria referenciado para as salas de bingo no turno de almoço...

De Pedro Andrade a 05.10.2015 às 15:31

Brilhante análise. Parabéns.

De Francisco a 05.10.2015 às 19:19

Em primeiro lugar, a "esquerda" não é um partido, é uma ideologia e é interpretada de uma forma bastante diversa entre os vários partidos de esquerda da AR, nomeadamente no enorme ponto de cisão: a União Europeia. Disto isto, simplesmente não existe uma união coesa entre os vários partidos de ideologia de esquerda em Portugal. Esta ideia é mais uma fantasia eleitoral que rapidamente irá desvanecer quando chocar contra a realidade.

Em segunda lugar, até o Costa se apercebeu do erro descomunal que foi apelar à extrema esquerda. Será mesmo queremos mesmo ir pelo o caminho grego? Será que queremos mesmo entregar o governo deste país pequeno e economicamente débil ao radicalismo e experimentalismo político? O é que vamos alcançar com isso? O mesmo que os gregos alcançaram: uma mão cheia de nada e um futuro repleto de problemas.

Dito isto, o PS tem que admitir a derrota e ponto final.

De Gil Teixeira a 08.10.2015 às 01:46

Vendo as coisas com alguma frieza, António Costa não ganhou as eleições, mas a coligação CDS/PSD também perdeu a maioria absoluta. Pode dizer-se que todos perderam.

Os eleitores estão-se nas tintas para os programas dos partidos, bem ou mal elaborados, e para os “fait-divers”.

Sócrates anunciou o aberrante casamento entre pessoas do mesmo sexo, num país quase dito todo católico e ganhou as eleições. Cavaco Silva, depois de ter governado durante 10 anos, oito dos quais com maioria absoluta, foi chumbado a primeira vez como presidente da república.

Penso que António Costa saberá ler os votos destas últimas eleições e não se vai demitir, mas tentar sair da política por uma porta que não seja muito pequena.

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