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A entrevista de Passos Coelho.

Sexta-feira, 07.04.17

entrevista de Passos Coelho à SIC foi um monumental vazio político. É perfeitamente espantoso que perante a desastrada governação do actual governo, o líder da oposição passe o tempo a justificar-se a si próprio, nada tendo para dizer de relevante ao país. A única mensagem efectiva desta entrevista foi para o interior do PSD, ao dizer que não se demite se tiver um mau resultado autárquico. Passos Coelho parece continuar convencido de que ainda é primeiro-ministro, onde de facto faz sentido que não abandone o governo por causa de eleições autárquicas. Só que Passos Coelho, apesar do pin da bandeira nacional que insiste em pôr na lapela, é neste momento apenas um líder partidário. E um líder partidário que não consegue ganhar eleições que utilidade tem para o seu partido?

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publicado por Luís Menezes Leitão às 08:22

Bem prega Frei Tomás!

Segunda-feira, 20.03.17

Leio aqui que Marques Mendes considera desastrosa a forma como Passos Coelho geriu a escolha do candidato a Lisboa e que, se as coisas correrem mal, a culpa é do líder. Não poderia estar mais de acordo. Só estranho é que seja Marques Mendes a dizê-lo. Na verdade, se bem me lembro, em 2007 a Câmara de Lisboa estava nas mãos do PSD e só passou para o PS porque Marques Mendes quis demitir Carmona Rodrigues e, quando este recusou, obrigou todos os vereadores do PSD a se demitirem, fazendo cair a Câmara. A seguir lembrou-se de candidatar Fernando Negrão que fez uma campanha desastrosa, só obtendo 15% dos votos, e entregando a Câmara de bandeja a António  Costa. Desde então que a Câmara de Lisboa está nas mãos do PS.

 

Por tudo isto me parece claro que Marques Mendes é a última pessoa que pode falar de estratégias desastrosas para Lisboa. Mas este exemplo também serve para questionar os nossos jornalistas. Será que nestes espaços de comentário político não há nenhum jornalista que faça lembrar ao comentador o seu próprio currículo no assunto que comenta?

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publicado por Luís Menezes Leitão às 16:34

Antes tarde do que nunca!

Quarta-feira, 21.09.16

A polémica sobre o livro de José António Saraiva mostrou infelizmente ao público o pior de Pedro Passos Coelho: a precipitação, a ligeireza e a teimosia. Só a precipitação pode explicar que o líder da oposição de um país, que aspira a voltar a ser primeiro-ministro, aceite apresentar um livro sem sequer o ler. Só a ligeireza explica que, confrontado com o teor do livro, viesse desvalorizar o assunto, não se apercebendo da gravidade do mesmo. E por fim, só a teimosia pode explicar as suas declarações públicas a insistir na apresentação do livro, quando era para todos evidente que o mesmo não poderia ser apresentado.

 

Qualquer líder partidário tem obrigação de pensar nos interesses do partido que lidera antes de toda e qualquer consideração pessoal. O PSD tem o legado de Sá Carneiro, que nunca permitiu que a vida íntima dos adversários fosse explorada, mesmo quando ele próprio sofria ataques em razão da sua vida privada. Nunca um líder do PSD poderia por isso apadrinhar um livro com referências à vida íntima de políticos. Passos Coelho deveria ter sido o primeiro a reconhecer essa situação. Como pelos vistos não foi o caso, ainda bem que alguém lhe explicou o óbvio e ele finalmente percebeu. Antes tarde do que nunca!

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publicado por Luís Menezes Leitão às 07:16

Há limites para tudo.

Sexta-feira, 16.09.16

Não li o livro e não gosto de fazer juízos antecipados sobre algo que não conheço. Se de facto se confirmar que é o quem tem vindo a público, trata-se de um objecto absolutamente inqualificável, a merecer o mais vivo repúdio.

Quanto à atitude de Passos Coelho em o ir apresentar, também a ser verdade que isso vai acontecer, parece-me que o qualificativo de amadorismo é muito suave. Nem que se tratasse de uma obra-prima a merecer o prémio Nobel — e acho que o autor tinha pretensões a tal — um ex-Primeiro-Ministro não se pode prestar a essa figura, uma vez que é muito mais do que um apresentador de livros. As pessoas têm que ter respeito pelo seu próprio passado e não devem deslustrar o que já foram.

Agora, se o livro é de facto o que dizem e se, apesar disso, Passos Coelho insiste em o apresentar, acho que é preciso pensar seriamente se ele está de facto em condições de voltar a ser candidato a Primeiro-Ministro. É que nem a um candidato a membro de junta de freguesia deve um partido político permitir semelhante disparate, quanto mais a um candidato a Primeiro-Ministro. Há limites para tudo e sinceramente acho que este espectáculo os vai ultrapassar a todos.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 16:20

O cerco aperta-se.

Quinta-feira, 31.03.16

Escrevi aqui que Passos Coelho estava a deixar o PSD ficar absolutamente cercado, quer pelos partidos da maioria governamental, quer pelo CDS, quer até pelo próprio Presidente da República. Na verdade, Marcelo não perde uma oportunidade para desancar Passos e apoiar Costa. Aliás, Marcelo e Costa até parecem o Senhor Feliz e o Senhor Contente da rábula criada por Nicolau Breyner. Hoje estou convencido de que o (para mim na altura) incompreensível apoio de António Costa a Sampaio da Nóvoa não visava outra coisa que não permitir a eleição de Marcelo, como veio a ocorrer. E Marcelo tem-se mostrado extremamente agradecido, nunca vacilando no apoio ao actual governo. 

 

Passos Coelho, pelo contrário, parece o Senhor Triste, todos os dias suspirando de saudade pelos tempos em que chefiava o governo e só falando desses tempos. Ainda ontem, no debate quinzenal, foi patético vê-lo pedir a António Costa que avaliasse as reformas que o governo anterior fez, parecendo completamente focado no passado e ignorando os combates do presente, que são duríssimos e onde não se pode fraquejar.

 

Só que até ontem faltava mais um elemento na equação: o surgimento da oposição interna. Essa oposição surgiu agora, com uma entrevista de Rui Rio, logo seguida de outra entrevista de Paulo Rangel. Ambos alinham pelo mesmo diapasão, dizendo em primeiro lugar o óbvio: que a oposição que Passos Coelho está a fazer ao governo está a ser muito frouxa e que o PSD precisa de uma renovação profunda, como aliás o CDS fez agora. O que é curioso, no entanto, é que não assumam desde já o objectivo (para todos evidente) de conquistar a liderança, dizendo Rui Rio que nem sequer se vai dar ao trabalho de ir ao congresso e Paulo Rangel que se sente muito bem no Parlamento Europeu.

 

Estamos assim perante o calculismo típico dos políticos portugueses em que António Costa fez escola. O objectivo daqueles dois é fritar Passos Coelho em lume brando durante dois anos ou mais, para depois lhe dar o golpe mortal nas vésperas das eleições. A Passos Coelho estaria assim reservado o papel de ser o António José Seguro do PSD, que irá de vitória em vitória partidária esmagadora — mesmo com 95% — até à derrota final, no momento em que o D. Sebastião há muito aguardado surgirá numa manhã de nevoeiro, para depois disputar as eleições sem o peso dos anos na oposição.

 

Confesso que me irritam profundamente estes esquemas de calculismo político. Era mais que altura de os partidos acabarem com isto. Mas é manifesto que é isso que vai suceder.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 12:02

A muleta.

Terça-feira, 15.03.16

Há muito tempo que acho que Passos Coelho pode ter sido um bom primeiro-ministro, mas será sempre um péssimo líder da oposição. No governo Sócrates apoiou tudo o que este quis fazer, de tal forma que ele até lhe chamava o seu parceiro de tango. A coisa só terminou com a rejeição do PEC4 quando percebeu (ou alguém lhe explicou) que se o deixasse passar, teria que se sujeitar a eleições no partido.

 

Agora estamos a assistir a mais uma repetição do mesmo filme. Depois de ter dito (e bem) que não contassem com o PSD para aprovar medidas que não tinham o apoio da maioria de esquerda, Passos Coelho volta atrás e afinal manda o PSD viabilizar com a abstenção os apoios à Grécia e à Turquia. O partido ficou assim completamente exposto ao ridículo e até Costa disse que tinha inventado uma "boa desculpa" para mudar o sentido de voto.

 

Será que Passos Coelho não percebe que estes sucessivos volte-faces são fatais para a credibilidade de um partido político? Ponha os olhos em Rajoy em Espanha e veja como o PP tem barrado completamente quaisquer veleidades de a esquerda ascender ao poder, sem apresentar uma maioria estável e coerente.

 

Se Passos Coelho julga que o PSD vai voltar ao poder a servir de muleta a um governo PS, engana-se redondamente. É por isso mais que tempo de abandonar a pose de primeiro-ministro no exílio e começar a fazer oposição a sério. Assim não vai a lado nenhum.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 07:06

O cocheiro frustrado.

Sábado, 13.02.16

Não há nada de que eu mais goste de que assistir a ex-políticos, que falharam rotundamente quando estiveram em funções, mas que mais tarde se permitem, do alto do seu estatuto senatorial, tecer comentários críticos sobre quem lhes sucedeu. Provavelmente essas críticas devem ter imenso efeito nas pessoas mais novas ou em gente desmemoriada. Para quem se lembra dos tempos em que eles exerceram funções, como é o meu caso, confesso que o descaramento me espanta.

 

Balsemão foi primeiro-ministro entre Janeiro de 1981 e Junho de 1983, tendo sucedido a Sá Carneiro, após a sua trágica morte a 4 de Dezembro de 1980. Herdou uma maioria absoluta no parlamento, resultante de duas vitórias eleitorais sucessivas de Sá Carneiro e Freitas do Amaral. Apesar disso, foi absolutamente incapaz de assegurar um governo estável, tendo-se demitido por duas vezes do cargo de primeiro-ministro, em virtude de meras críticas internas. Da segunda vez, a pretexto de "se ir dedicar ao partido", resolveu apresentar um primeiro-ministro interposto, Vítor Crespo, que tratou de arranjar um governo de segundas linhas. Freitas do Amaral, vendo o que se passava, demitiu-se a correr de todos os seus cargos políticos. Com o país em estado de choque, só o Presidente Eanes resolveu o assunto, rejeitando o governo proposto e dissolvendo o parlamento. O governo de Balsemão deixou o país em tal estado que, a seguir, o PSD viu-se forçado a aceitar um governo de bloco central com o PS, presidido por Mário Soares, que chamou imediatamente outra vez o FMI. 

 

É espantoso que, tendo este currículo governamental, Balsemão se permita dizer que Passos Coelho é um "cocheiro frustrado" "com os cavalos um pouco cansados". Eu pessoalmente tenho sido muito crítico de Passos Coelho, mas reconheço que foi primeiro-ministro na situação mais difícil que Portugal atravessou desde o 25 de Abril e conseguiu levar o barco a bom porto, resolvendo todas as tormentas que surgiam. Qualquer comparação com Balsemão é arrasadora para o próprio Balsemão. Basta lembrar a maneira como Passos Coelho segurou Portas, quando ele quis fugir do governo, ao contrário do próprio Balsemão, que não só se demitiu duas vezes, como deixou Freitas do Amaral dar às de Vila Diogo.

 

O futuro político de Passos Coelho depende de conseguir ultrapassar ou não a situação política nova que António Costa lhe criou. Mas, venha ou não a ter sucesso, nunca será um "cocheiro frustrado", pois soube conduzir o coche na perfeição na altura em que foi primeiro-ministro. O mesmo não se pode dizer de Balsemão, pelo que, se esse epíteto assenta a alguém como uma luva, é a ele próprio.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 08:11

Um erro colossal.

Sexta-feira, 05.02.16

Em política a mensagem tem que ser muito clara e totalmente credível. Esta mensagem da recandidatura de Pedro Passos Coelho à liderança do PSD é tudo menos isso. O desenho e o slogan "Social-Democracia sempre" remetem-nos para os tempos iniciais do PPD que, nos idos do PREC, propunha a social-democracia como tímido contraponto ao socialismo, que todos os outros partidos sustentavam. Na altura até o CDS reclamava defender um "socialismo personalista".

 

O problema é que esta imagem e este slogan fariam sentido numa candidatura de Pacheco Pereira à liderança do PSD. Numa candidatura de Passos Coelho não fazem sentido absolutamente nenhum. Quem andou nos últimos quatro anos a dizer que o actual Estado Social é insustentável e que os contribuintes já não o conseguem suportar, não pode agora andar a proclamar "Social-Democracia sempre" e a recordar os tempos iniciais do PPD. Primeiro, essa recordação só fará sentido para pessoas com mais de 50 anos, já que a todos os outros nada dirá. Depois, se há imagem que Passos Coelho conseguiu construir foi a de alguém realista e que não iludia as dificuldades presentes que o país atravessa. Apresentar uma imagem mirífica de regresso a um tempo em que tudo parecia possível representa uma contradição total, o que só pode confundir os eleitores. E estes estão preocupados é com a realidade muito concreta da situação económica do país, que ameaça desabar a qualquer momento.

 

Por outro lado, o discurso de Passos Coelho também está a ser um desastre em termos políticos. Passos Coelho não consegue sair da amargura de repetir sucessivamente que "não só não governa quem ganhou as eleições como governa quem as perdeu", o que, sendo a mais pura das verdades, não deixa de representar alguém incapaz de virar a página. Apresentar como principal conteúdo da sua mensagem política o de que "não falhámos" e que "este é o passado com que me apresento" é estar focado no passado e não no presente.

 

Só que o presente não é ser primeiro-ministro, mas líder da oposição. E se no passado Passos Coelho foi um bom primeiro-ministro, não foi seguramente um bom líder da oposição, já que foi incapaz de travar o caminho de Sócrates em direcção à bancarrota, tendo-lhe dado a mão vezes excessivas. É aliás o que está agora outra vez a fazer com António Costa, não se compreendendo como é que alguém pode dizer "não acredito na solução de Governo actual", para depois ser quem lhe salva o orçamento rectificativo.

 

Passos Coelho começa a parecer-se perigosamente com Al Gore, que venceu o voto popular nas eleições dos Estados Unidos, mas não conseguiu impedir que George W. Bush chegasse à presidência, já que teve mais votos no colégio dos grandes eleitores. Al Gore foi incapaz de seguir em frente, e mesmo depois do colapso da presidência de George W. Bush, com Al Gore ninguém mais contou.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 06:39

Derrotado em toda a linha.

Quinta-feira, 17.09.15

O debate de hoje teve um vencedor claro: Passos Coelho. Hoje apresentou-se pela primeira vez em forma, perante um António Costa que se manteve absolutamente igual ao debate anterior. Só que a prestação de António Costa, se lhe permitiu vencer um Passos Coelho apagado, já não lhe evitou uma derrota colossal com Catarina Martins. Era por isso evidente que bastaria Passos Coelho crescer um pouco para António Costa sair derrotado em toda a linha. Foi o que se passou.

 

Passos Coelho começou por corrigir os erros do anterior debate, ao não ter respondido à crítica disparatada do aumento da dívida e ao auto-elogio (falso) da sua redução em Lisboa. Desta vez fê-lo de forma esclarecedora, aproveitando ainda para chamar a atenção para as miríficas promessas que António Costa tinha feito aquando da sua campanha em Lisboa.

 

Passos Coelho percebeu ainda o que já era óbvio depois da entrevista com Vítor Gonçalves e do debate com Catarina Martins: António Costa passa a vida a dizer que tem compromissos escritos no programa, mas não percebe nada do que lá está. A Vítor Gonçalves nada respondeu, tendo tido a atitude ridícula de lhe entregar um resumo do programa e a Catarina Martins limitou-se a repetir as acusações ao corte de pensões da direita, sendo incapaz de explicar os números que constavam do seu programa. 

 

Hoje António Costa foi igualmente incapaz de dar explicações sobre o seu programa, dizendo apenas generalidades ou acusando o adversário. Até numa pergunta simples sobre o modelo de escalões que defende para o IRS nada disse, alegando que lhe faltava "informação fina". O quadro de receita fiscal constante do orçamento e os dados da sua execução são por acaso "informação grossa"?

 

Curiosamente a estocada decisiva em António Costa não foi dada por Passos Coelho, embora este a tenha imediatamente cavalgado, mas por Graça Franco. Esta perguntou a António Costa a que prestações da segurança social queria aplicar a condição de recurso, conforme tinha previsto no seu programa. António Costa foi incapaz de dar qualquer resposta e, apesar das insistências da jornalista e de Passos Coelho, limitou-se mais uma vez a papaguear generalidades. Provavelmente bem lhe apeteceria repetir o número que fez com Vítor Gonçalves, mas percebeu que não tinha condições para o fazer.

 

No fim do debate, após um briefing com Mário Centeno, lá foi capaz de responder alguma coisa aos jornalistas. A meu ver, foi pior a emenda do que o soneto, pois a imagem que ficou foi a de um político impreparado, que se limita a debitar um programa elaborado por Mário Centeno, do qual nada percebe, a não ser que o mesmo Centeno lhe explique. António Costa bem pode protestar que isto é um "não caso", que a generalidade dos analistas vê nisto um caso muito sério.

 

Tem sido afirmado que os debates em nada influenciam o resultado eleitoral, a não ser que um dos candidatos cometa uma gaffe monumental. A meu ver foi o que se passou hoje. O que torna imprevisível quem vai vencer as eleições. A partir de agora all bets are over.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 17:04

O debate.

Quinta-feira, 10.09.15

Passos Coelho pode orgulhar-se de ter dirigido o governo que conseguiu levar a bom porto o país, depois da situação mais complexa que qualquer governo teve em Portugal desde 1975, em grande parte por culpa do governo anterior. Como primeiro-ministro, revelou-se especialmente em dois momentos extremamente difíceis. O primeiro foi em Julho de 2013, quando segurou o governo, perante a demissão irrevogável do seu parceiro de coligação, Paulo Portas, evitando que a coligação se desfizesse, como sucedeu à AD em 1982 quando Freitas do Amaral tembém decidiu abandonar o barco. O segundo foi em Julho de 2014, quando recusou envolver o dinheiro dos contribuintes no colapso do BES, não repetindo assim o que Sócrates tinha feito com o BPN. Passos Coelho apresenta a seu crédito ter conseguido evitar novos resgates e ter colocado o país novamente a crescer. Por isso, como recentemente escreveu o insuspeito José Silva Pinto neste livro, mesmo que perca as eleições, sairá sempre do governo com a consciência tranquila.

 

O problema é que não se ganham eleições com base nos feitos do governo anterior, e muito menos a referir os deméritos do governo que tinham na altura substituído. Churchill também conseguiu no Reino Unido o enorme feito de vencer uma guerra que no início todos davam como perdida e nas eleições subsequentes foi esmagado pelos trabalhistas. Para ganhar eleições é preciso apresentar um projecto político consistente ao eleitorado e combater eficazmente por ele.

 

A coligação, pelo contrário, convenceu-se de que o balanço que poderia apresentar destes quatro anos chegaria para a vitória e que por isso bastaria aos seus líderes fazerem-se de mortos até às eleições. Diga-se de passagem que até ontem a estratégia parecia resultar, tantos eram os tiros que Costa estava a dar no seu próprio pé. Daí que os debates tenham sido menorizados, não se lhes tendo dado grande importância.

 

Só que a forma como Paulo Portas foi trucidado por Catarina Martins deveria ter feito soar as campainhas de alarme nos partidos da coligação, fazendo prever um combate muito duro com António Costa, no qual Passos Coelho teria que jogar ao ataque. No entanto, este apareceu à defesa, tendo tido muita dificuldade em aparar os golpes do adversário. Nem sequer respondeu a acusações que não tinham qualquer consistência, como a de ter aumentado a dívida. Como é que teria sido possível ela ter sido reduzida depois de o governo anterior ter pedido emprestado 88 mil milhões de euros e continuar todos os anos a existir défice no orçamento do Estado?

 

E deixou passar em claro a afirmação extraordinária de Costa de que tinha vendido terrenos da Câmara de Lisboa e decidido aplicar o montante no pagamento da dívida da autarquia. Como aqui se explica, Costa não vendeu terreno algum, já que eles tinha sido expropriados em 1942. Apenas se limitou a chegar a acordo numa acção que a Câmara tinha instaurado contra o Estado e que não tinha quaisquer garantias de vir a ganhar. E também não decidiu reduzir a dívida com o dinheiro recebido, pois não recebeu dinheiro algum. O acordo no processo foi que o Estado assumiria e passaria a pagar 43% da dívida da Câmara. É espantoso que surjam afirmações deste género num debate e que não surja por parte do adversário uma resposta à altura.

 

Ou os líderes da coligação deixam de fazer de mortos e se preparam a sério para este difícilimo combate ou serão apeados nas próximas eleições sem apelo nem agravo. E quem sofrerá com isso é o país, que passará se calhar a ter o único governo de frente popular da zona euro.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 12:38








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