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Um país sem soberania.

Quinta-feira, 20.03.14

 

Se há coisa que me revolta profundamente é o estado a que se deixou chegar a soberania nacional num país com oito séculos de história. No dia em que na Europa se assiste à emergência de nações a reclamarem a independência, como a Escócia no Reino Unido, ou a Catalunha na nossa vizinha Espanha, Portugal afunda-se completamente, não parecendo capaz de tomar qualquer decisão soberana. Basta alguém sequer aventar essa hipótese, como sucedeu com o manifesto dos 74, hoje cada vez com mais apoios, para ser imediatamente acusado de crime de lesa-majestade, por indispor os verdadeiros soberanos, neste caso os credores. Como já aqui escrevi, esta situação começa a parecer-se com o fim do Estado Novo.

 

Os nossos governantes passaram a dedicar-se exclusivamente à encenação. O actual Primeiro-Ministro, numa prática inaugurada pelo seu antecessor, passou a ir a despacho a Berlim, o que considera um acto de grande soberania. De lá, ao lado da verdadeira soberana, pretende convencer-nos que a Alemanha aguarda com expectativa a decisão do Governo Português, e que a apoiará qualquer que ela seja. Como se nós não tivéssemos percebido que a decisão já foi tomada pela chancelerina alemã, e que o Governo se limitará a executá-la. Porque se não o fizesse, nas imortais palavras do outro, estaria o caldo entornado. Vai estar de qualquer maneira, mas para quem conta isso pouco importa.

 

Mas a encenação mais grave foi a do Presidente na sua comunicação de ontem. Pretendeu, em primeiro lugar, convencer-nos que, depois de uma audição aos partidos políticos, tinha decidido marcar a data das eleições europeias para 25 de Maio. Como se nós não soubéssemos que essas eleições estão marcadas pelo Conselho Europeu desde 14 de Junho passado, só podendo os Estados-Membros decidir sobre se se realizam entre a quinta-feira e o domingo, sendo que o Reino Unido opta habitualmente pelo primeiro dia e os restantes Estados-Membros pelo último. Em segundo lugar o Presidente, numa nova versão de que a pátria não se discute, pede aos partidos políticos que apenas discutam os temas europeus e não os nacionais. Estou mesmo a imaginar um debate entre os portugueses sobre se o melhor presidente da Comissão será Alexis Tsipras, Martin Schulz, Guy Verhofstadt, ou Jean-Claude Juncker. Depois o Presidente pede aos portugueses que sejam bem comportados, e evitem crispações, para não prejudicar os "futuros consensos", que naturalmente outros se encarregarão de decretar. E finalmente o Presidente termina dizendo que o futuro da Europa é o futuro de Portugal. Esta frase lapidar significa apenas que o país já não tem futuro. Como num prefácio recente o Presidente fez questão de explicar.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 08:26


6 comentários

De Jorge a 20.03.2014 às 09:14

Tal como uma familia endividada que cai nas mãos dos credores, perdendo a sua soberania, o mesmo acontece aos Estados que quando não se sabem governar e vivem de empréstimos, ficam sujeitos a este tipo de situações.
Em 40 anos é a segunda vez que chamaram o FMI. Pelos vistos, parece que não...não se aprenderam mesmo nada, alguém vai ter que vos fazer desenhos!

De M.Alberto a 20.03.2014 às 10:24

Muito Bom.
Claríssimo e só assim não entende quem não quer e/ou anda muito distraído.

De jorge lopes a 20.03.2014 às 19:20

Cidadao: revolta te! Vota NULO nas proximas eleiçoes!

De joao carlos oliveira a 20.03.2014 às 20:06

Totalmente de acordo.
Quando se faz um empréstimo tem de se cumprir as regras do mesmo, e não apanhar o dinheiro e em seguida desfazer acordos.
Infelizmente pedimos primeiro e pensamos mais tarde.”A boa maneira portuguesa”

De iFernando a 20.03.2014 às 22:08

Enquanto o Estado gastar a mais do que recebe, como acontece hoje, nunca seremos independentes. Com o PS eram 15.000 milhões a mais e hoje ainda são 7.000 milhões por ano.

De Fernando a 21.03.2014 às 08:26

Em 8 séculos de existência nunca demos o calote a ninguém. Se pedimos emprestado há que pagar! Não precisamos de viver à custa dos trabalhadores alemães, ingleses e dinamarqueses.

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