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A contestação ao Presidente do Parlamento.

Sexta-feira, 19.03.10

O Presidente da Assembleia da República é em termos protocolares a segunda figura do Estado. Não é por isso aceitável que um Secretário de Estado se dirija ao Parlamento sem referir o seu Presidente, e insista na omissão depois de ter sido advertido. Em qualquer outro país europeu já estaria demitido por exigência do próprio Parlamento. Em Portugal, pelo contrário, é estrondosamente aplaudido pelo grupo parlamentar que apoia o Governo. Pelos vistos, esses deputados acham que merece aplauso o desrespeito ao seu próprio Presidente. Não vêm que ao atingir a dignidade do Parlamento, que o Presidente representa, esse acto atinge a sua própria dignidade enquanto membros do Parlamento.

 

A atitude desrespeitosa para com Jaime Gama voltou, porém, a ser assumida pelos deputados do PS, quando este - e bem - não atendeu um protesto de José Lello contra os fotógrafos que pretendiam fotografar as páginas que ele estava a ver no seu computador. Aí os referidos deputados encerraram ruidosamente os seus computadores, fazendo lembrar os "levantamentos de rancho" tradicionais. O ridículo da atitude, e do que a motiva, é absolutamente extraordinário, mas não deixa de demonstrar uma séria contestação a Jaime Gama, vinda do seu próprio grupo parlamentar.

 

Ora, uma contestação ao Presidente do Parlamento, por parte dos deputados que apoiam o Governo, é algo a que ainda não tínhamos assistido na nossa democracia. Lembro-me da reacção de alguns deputados a afirmações infelizes de Vasco da Gama Fernandes, ou de ter sido muito contestada a eleição de Oliveira Dias. Mas não me lembro de alguma vez ver a sua autoridade como Presidente do Parlamento ser posta em causa pelos deputados. Estamos assim a assistir a algo novo.

 

À descredibilização do Governo e à falta de confiança dos portugueses no funcionamento do sistema de justiça soma-se assim agora o descrédito do Parlamento. É muito grave que tal aconteça depois de o Presidente da República ter, na entrevista televisiva que deu, remetido para o Parlamento a resolução da crise política. A crise está assim para ficar e não parece haver solução à vista.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 23:34





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