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A redução do salário dos políticos.

Quarta-feira, 09.06.10

Continuo a achar que este Governo, com a série de medidas contraditórias que constantemente anuncia, não tem a credibilidade necessária para exigir ao País os sacrifícios que vão ser necessários nos próximos tempos. Há um ponto, porém, em que o Primeiro-Ministro tem razão, e que respeita à redução do salário dos políticos. Trata-se, como ele referiu, de uma medida apenas simbólica e que não vai ter qualquer efeito prático, a não ser a de contribuir demagogicamente para o descrédito da classe política, que já é muito acentuado. Na verdade, para ter qualquer eficácia na redução da despesa pública, o corte teria que abranger todos os salários dos funcionários públicos, como está a ser praticado noutros países, e provavelmente até teria que ser muito superior a 5%.

 

Ao se ter limitado essa redução ao salário dos políticos, agravou-se naturalmente a disparidade dos seus salários com os que são praticados no sector privado, levando a que cada vez mais pessoas deixem de ter qualquer interesse em exercer cargos de natureza política. Mas, como aqui se refere, agora ainda se vai ao ponto de excluir dessa redução cargos de confiança política, como assessores e adjuntos dos gabinetes ministeriais, dando assim uma imagem de que os políticos têm que dar o exemplo, mas esse exemplo nem sequer é seguido nos seus próprios gabinetes.

 

Esta situação faz-me lembrar este episódio da série Yes, Prime Minister, em que Sir Humphrey consegue ultrapassar as objecções do Primeiro-Ministro a aumentar o salário dos funcionários públicos, propondo que o salário dos políticos a eles fosse indexado, argumentando que o próprio Primeiro-Ministro ganhava menos do que ele, como seu Secretário Permanente. Com a continuação destas medidas, provavelmente em breve os Ministros e Deputados ganharão menos do que os seus assessores e adjuntos e os Directores-Gerais que deles dependem.

 

Não me parece que este tipo de medidas demagógicas contribua minimamente para que os sacrifícios que se pedem aos cidadãos sejam por eles aceites sem protesto. Para a aceitação desses sacrifícios, o que é fundamental é a confiança nas políticas governamentais. Ora, é aí que reside precisamente o nosso maior défice.

 

 

 

 

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publicado por Luís Menezes Leitão às 11:17





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