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Ensaio sobre a cegueira

Quarta-feira, 21.09.11

 

 

 

Novamente o lançamento de mais medidas de austeridade na Grécia, uma vez que, por mais brutais que sejam as anteriores, elas nunca chegam. Fico perplexo que alguém julgue que é possível prosseguir num caminho que toda a gente já percebeu onde vai levar. Uma regra fundamental na política é o de que tem que acontecer é melhor que aconteça logo. Mais vale encarar os problemas de frente do que adiar o inevitável.

 

O ano passado, numa reunião internacional, conheci um Professor de uma Universidade grega. Perguntei-lhe como estava a situação na Grécia e a resposta dele foi a de que lhe tinham cortado 25% do seu salário. Soube posteriormente que os impostos sobre o imobiliário decuplicaram na Grécia no ano passado.

 

Este ano, a Grécia tem andado a apresentar medidas de austeridade cada vez mais absurdas, quer de cortes nos salários, quer de aumento de impostos. Em 11 de Setembro anunciou um novo aumento de imposto sobre o imobiliário, a cobrar na conta da luz, em ordem a obter uma receita extarordinária de dois mil milhões de euros. Como em Portugal a receita anual do IMI é de mil milhões de euros (a troika propôs um aumento de 250 milhões) e a Grécia tem sensivelmente a mesma população de Portugal, imagine-se o impacto deste novo imposto. E o facto de ser cobrado na factura da luz parece ter o objectivo de cortar a luz a quem não o pagar.

 

Agora apenas dez dias depois surgem ainda novas medidas de austeridade: corte de 20% nas pensões acima de 1200 euros e colocação de 30000 funcionários públicos numa bolsa especial, em que lhes é cortado 60% do vencimento, podendo mesmo ser despedidos. E o absurdo imposto imobiliário acima referido é prorrogado até 2014, só ficando isentos os cidadãos que ganhem menos de 5000 euros anuais! Devem ser os únicos a quem não vai ser cortada a luz.

 

Como não podia deixar de ser o resultado desta política é de que a Grécia entrou numa enorme recessão, sofrendo uma contracção de 7,3% do PIB. É por isso manifesto que não vai conseguir pagar nada das suas dívidas e que estas medidas de austeridade para dar confiança aos mercados vão ser totalmente inúteis.

 

O comportamento dos outros países europeus em relação à Grécia lembra-me o Ensaio sobre a cegueira, de Saramago. Quando várias pessoas ficam cegas em resultado de uma doença misteriosa, são colocados numa prisão em isolamento para evitar o contágio. O problema é que o contágio não deixa de se verificar, crescendo o número de presos até que os próprios governantes são atingidos. Quando a Grécia cair (já não é se…) o contágio aos outros países europeus é inevitável. Passos Coelho já o reconheceu ontem. Lastimavelmente, no entanto, a Europa continua a caminhar para o abismo, insistindo numa via que já se provou que não resolve o problema dos países endividados. Por onde anda a proclamada solidariedade europeia?

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publicado por Luís Menezes Leitão às 20:13

Mais uma revolução silenciosa.

Quarta-feira, 21.09.11

Já perdi a conta à quantidade de vezes que oiço falar de "revolução silenciosa" para procurar desculpar o facto de não se estar a fazer nada de relevante ou o que se está a fazer não estar a produzir o efeito desejado. Mariano Gago dizia que estava a fazer uma revolução silenciosa na Ciência e nas Universidades. O programa Novas Oportunidades foi também qualificado como uma revolução silenciosa. O programa de distribuição de frutas e legumes nas escolas também foi considerado uma revolução silenciosa. A ida de Paulo Bento para treinador da selecção nacional foi igualmente vista como uma revolução silenciosa. Também a antiga Ministra do Ambiente Dulce Pássaro dizia que tinha havido uma revolução silenciosa na distribuição de águas. A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados foi também vista como uma revolução silenciosa ao serviço dos idosos. Alguém deu por todas estas gigantescas revoluções?

 

Não querendo desmerecer a tradição das revoluções silenciosas em Portugal, vem agora Carlos Moedas dizer que o Governo está a fazer também a sua revolução silenciosa de que os portugueses infelizmente não se conseguem aperceber. Imagine-se onde é que está a revolução silenciosa: numa futura revisão da Lei da Concorrência, que ainda ninguém viu, e numa reforma muito limitada do Código da Insolvência, já justamente apelidada como uma via verde para a insolvência. Neste último caso, duvido que a revolução seja silenciosa, pois, se alguma coisa que dificlmente será vista em silêncio será o multiplicar das insolvências em Portugal.

 

Era bom que acabasse este hábito de chamar "revolução silenciosa" a tudo e mais alguma coisa. A única revolução de que me lembro de ter assistido neste país ocorreu há 37 anos. E garanto que na altura toda a gente deu por ela.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 13:11





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