O regresso do arco da governação.

Nos últimos tempos houve muitas vozes que se congratularam com o fim do arco da governação, tendo até António Costa proclamado que tinha derrubado o muro de Berlim quando chamou o BE e o PCP a apoiar o seu governo. É, no entanto, evidente que o coração do PS, com o seu europeísmo militante, balança muito mais no sentido do PSD e do CDS do que no sentido das posições do PCP e do BE. Por isso, o mais provável é que o PCP e o BE acabem nesta história a fazer a figura de maridos enganados, apoiando entusiasticamente o governo PS, para ele depois cair nos braços do PSD e do CDS.
Este caso do BANIF é a prova provada dessa situação. António Costa tomou a decisão que o establishment europeu pretendia e Cavaco Silva já tinha pedido, quando lhe exigiu que "assegurasse a estabilidade do sistema financeiro". É uma decisão da qual eu pessoalmente discordo, mas que é típica dos partidos do arco da governação, que empenham sempre todo o dinheiro que o país não tem, numa vã tentativa de salvar bancos falidos. Nesta lógica, nem sequer se percebe para que é que se instituiu um Fundo de Garantia dos Depósitos, já que nunca será accionado, uma vez que o Estado é generoso e está sempre disponível para salvar os bancos.
Não admira por isso que Passos Coelho tenha vindo a correr apoiar a decisão de António Costa. Já Jerónimo de Sousa correctamente recusou-se a passar essa factura para os contribuintes, anunciando o voto contra no OE rectificativo. Já o Bloco de Esquerda condicionou o seu voto favorável a novas exigências, que Costa terá que cumprir. É, por isso, óbvio que o Orçamento Rectificativo vai ser aprovado é com os votos da direita, colocando António Costa na posição de Alexis Tsipras, com os apoiantes do governo a votar contra as suas medidas, que só são aprovadas pela oposição. Nessas condições, prevêem-se eleições a curto prazo.
Em qualquer caso, parafraseando Mark Twain, é manifesto que a anunciada morte do arco da governação foi um exagero. O arco da governação está bem vivo e recomenda-se.
