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A geringonça espanhola.

Sexta-feira, 01.06.18
Resultado de imagem para Pedro Sánchez presidente

Aquando das últimas eleições espanholas, tive um almoço com um colega espanhol em Lisboa. Iniciámos a refeição com uma sopa à alentejana e a certa altura perguntei-lhe se a Espanha poderia imitar Portugal com Pedro Sanchéz a criar uma geringonça espanhola para derrubar Rajoy. A resposta dele foi a seguinte: "A geringonça portuguesa é como esta sopa à alentejana. Alimenta, mas não tem muitos ingredientes. A nossa geringonça seria uma verdadeira sopa à espanhola, com imensos ingredientes, entre os quais os partidos independentistas. E estes exigiriam cedências inaceitáveis ao governo espanhol para lhe dar o seu apoio. O PSOE não tem condições para alinhar nisso".

 

Esse vatícinio verificou-se e não só Rajoy manteve o governo, como também lançou uma guerra sem quartel aos independentistas catalães, com o apoio entusiástico de Albert Rivera e também um apoio sem reservas de Pedro Sánchez, que sabia ser a luta independentista catalã muito impopular no resto da Espanha. Rajoy desencadeou assim uma luta acesa contra a Catalunha, mantendo o art. 155 até ao limite, governando a região com quatro deputados, rejeitando as decisões do parlamento catalão, recusando ministros do governo, etc., etc. Só que aí perdeu o seu apoio parlamentar, uma vez que o ódio que causou aos independentistas catalães e por arrastamento aos nacionalistas bascos foi de tal ordem que a estes partidos passou a bastar um simples estender da mão de Pedro Sánchez para lhe darem o seu apoio.

 

Quando saiu a sentença do caso Gürtel, Pedro Sánchez, em queda sucessiva nas sondagens, viu chegada a sua oportunidade. Lançou uma moção de censura construtiva que facilmente lhe permitiu chegar à nomeação como primeiro-ministro de Espanha. Rajoy bem falou num governo de Frankenstein, imitando a reacção de Passos Coelho ao diabo que a geringonça traria, e Albert Rivera desesperou por não haver eleições, quando todas as sondagens lhe estão a dar o primeiro lugar. Mas, na política como na guerra, quem com ferros mata com ferros morre, e quem se lança com fúria cega ao combate numa frente, pode muito bem desguarnecer a rectaguarda. Hoje o ataque de Pedro Sánchez, que muitos davam como acabado, foi mortífero, lançando um ataque certeiro aos partidos à sua direita.

 

É muito provável que tudo isto acabe mal e que a tal sopa à espanhola seja um caldo bem grosso, totalmente indigerível para Espanha. Mas neste momento o cozinheiro acaba de demonstrar que a mesma pode ser preparada para ser servida. A geringonça também foi possível em Espanha.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 20:11

O novo governo italiano.

Sexta-feira, 01.06.18
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Lembro-me da candidatura de Pintasilgo às eleições presidenciais de 1986, em que ela apresentou praticamente um programa de governo que se propunha executar a partir da presidência. Essa candidatura naufragou num célebre debate com Mário Soares em que este candidamente lhe perguntou como seria possível executar esse programa se era o parlamento que escolhia o governo. Ela imediatamente respondeu que não aceitaria um governo que não executasse o seu programa. Soares limitou-se a replicar: "O parlamento reitera a confiança no governo e ao presidente só resta renunciar ao cargo". A candidatura de Pintasilgo acabou aí.

 

Foi praticamente isso o que se passou em Itália com o Presidente Sergio Matarella a rejeitar o governo de coligação saído do Parlamento, por incluir na pasta das Finanças o eurocéptico Savona, e a querer nomear um "governo técnico", presidido por Carlo Cotarelli, não por acaso um antigo funcionário do FMI. Para tal muito contribuíram as declarações do comissário alemão Günther Öttinger, que disse que os mercados iriam ensinar os italianos a votar de maneira correcta. Tal foi oferecer de bandeja a Salvini uma futura vitória eleitoral, após a garantida rejeição do "governo técnico" no parlamento. Aí é que os mercados entraram em pânico, com o comissário alemão a pedir desculpas aos italianos e o presidente viu-se forçado a aceitar de novo a coligação Salvini-Di Maio. Para não perder totalmente a face, deram-lhe um prémio de consolação com Savona a sair da pasta das Finanças, ainda que tenha passado provocatoriamente para os Assuntos Europeus. Mas é manifesto que a sua capacidade de influenciar o novo governo ficou reduzida a zero.

 

Tudo isto demonstra que as sucessivas ingerências da União Europeia nos assuntos internos dos Estados-Membros não conduzem a bom resultado. Em democracia o voto dos eleitores é soberano e não são aceitáveis tutelas externas. A União Europeia devia ter aprendido com o Brexit, mas pelos vistos não aprendeu nada. A continuarem assim, isto não vai acabar bem.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 08:42





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