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Sonhos de Verão.

Segunda-feira, 03.09.12

 

O Governo estava a preparar-se para atirar para a troika as culpas pelo falhanço clamoroso do objectivo do défice para este ano (já vai em 6,9% só no primeiro semestre!), alegando que o programa de ajustamento estava mal concebido.

 

Para isso contava com o apoio expresso de Cavaco Silva que, num intervalo do golfe, lá veio dizer que não seria por causa de umas décimas (3, 4, ou 5) que se  iria dizer que o Governo falhou a meta do défice, provavelmente apostando que a troika nos reconheceria algum handicap. Mas as décimas já vão em 24, o que é um desvio colossal em relação às expectativas do Presidente.

 

Apesar destes dados, no seu patético discurso num dos encontros partidários a que pomposamente se chama Universidades de Verão, Passos Coelho diz que "o défice está cair" e que "não há evidência de ciclo vicioso de recessão económica". Uma vez que na mesma Universidade de Verão, António Borges tinha dito que as coisas estavam a correr melhor que o que se esperava e Cândida Almeida também garantia que não havia corrupção em Portugal, parece que aquele encontro deveria chamar-se antes de sonhos de Verão.

 

Na sua crónica de ontem João Pereira Coutinho pôs o dedo na ferida: "O défice de 4,5% para 2012 converteu-se em anedota. Mas governantes e comentadeiros não estão horrorizados com este falhanço. Pelo contrário: ele é providencial e só mostra que o aluno é um bom aluno. O problema está na professora, que exagerou na matéria e vai agora conceder equivalências à malta, na melhor tradição nativa".

 

Estas declarações do responsável da Comissão Europeia mostra para quem tivesse dúvidas que é também um sonho de Verão o Governo contar com alguma compreensão da troika, devido à sua pretensa imagem de bom aluno. Os bons alunos não são aqueles que se esforçam arduamente sem conseguirem atingir os resultados propostos. São aqueles que atingem efectivamente esses resultados. Agora que é o tempo do regresso às aulas, era bom que o Governo se deixasse de sonhos de Verão e preparasse de vez o país para o pesadelo outonal que aí vem.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 16:55

Os apelos do Presidente.

Quinta-feira, 09.08.12

 

Fico cada vez mais perplexo com os apelos de Cavaco Silva. Agora vem apelar ao BCE para começar desde já a comprar títulos da dívida portuguesa e irlandesa. Até pode ser que o apelo seja muito justificado, mas Cavaco Silva é o Chefe de Estado de Portugal e não pode colocar-se numa posição de inferioridade, a fazer pedidos públicos a um funcionário não eleito, como Mário Draghi. Pela minha parte, estava à espera de tudo, menos de ver o Presidente de Portugal a apelar à compra de títulos da dívida portuguesa. E ainda mais perplexo fico quando inclui no mesmo pacote a Irlanda, excluindo no entanto a Grécia. Estamos zangados com os gregos ou já os damos como um caso perdido? E da Irlanda, terá havido alguém que encomendou ao nosso Presidente esse sermão? Ou será Cavaco acha que Mr. Michael D. Higgins, actual Presidente da Irlanda, não está a vender adequadamente os títulos do seu país e quer desde já dar-lhe uma ajuda? Tudo isto me parece mau de mais para ser verdadeiro.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 20:27

A presidência fechada.

Terça-feira, 10.04.12

 

Pelos vistos Cavaco Silva acaba de se deixar arrastar pelo desastre em que o Governo se enredou nesta semana em torno da reposição dos subsídios e do diploma secreto sobre o congelamento das reformas antecipadas.

 

Em relação ao congelamento das reformas, Cavaco Silva invoca o "interesse nacional" para promulgar em segredo os diplomas do Governo. Sabemos assim que as regras sobre a transparência na actividade governativa e a liberdade de informação já nada valem e que o Governo e o Presidente se entenderão sempre para aprovar qualquer legislação clandestina, bastando para isso a invocação de uma arbitrária razão de Estado. Podemos imaginar a quantidade de diplomas que a partir de hoje podem ser elaborados e publicados na clandestinidade, de que os cidadãos só saberão quando lerem o diário da república electrónico.

 

Já em relação à reposição dos subsídios cortados (e já agora dos salários também cortados na era Sócrates), Cavaco Silva considera "prematura" a discussão, ao mesmo tempo que se recusa a esclarecer se ele próprio continua ou não a receber esses mesmos subsídios. O problema é que sempre se afirmou — e foi isso que o Tribunal Constitucional sancionou — que esses cortes eram temporários, e o que é temporário tem que ter um limite temporal definido. Afirmar que a reposição dos subsídios, como se diz do Natal, ocorrerá quando um homem quiser, implica ter-se praticado uma monumental fraude aos cidadãos, com o qual o Presidente não deveria contemporizar, enquanto garante do Estado de Direito. Ora, pelos vistos não apenas aceita essa situação, como também não esclarece o seu caso pessoal, quando é absolutamente inaceitável que possa não estar sujeito às mesmas regras que promulgou.

 

Não há nada pior para um político que não compreender os sentimentos dos cidadãos. Mário Soares gabava-se de fazer presidências abertas. Cavaco acabou de fechar a sua.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 18:30

O líder da oposição em Portugal.

Sexta-feira, 18.11.11

Estas declarações de Cavaco Silva demonstram que ele é o verdadeiro líder da oposição em Portugal. Não falo de oposição ao governo, porque o governo limita-se a executar acriticamente os ditames da troika. Falo da oposição à própria troika, aquele conjunto de funcionários não eleitos e principescamente pagos que efectivamente nos governa. Desde o governo de Beresford no séc. XIX que Portugal não assiste a nada semelhante.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 19:55

O discurso de Cavaco Silva.

Quarta-feira, 09.03.11

Não deixa de ser irónico que Cavaco Silva tenha tomado posse numa quarta-feira de cinzas. Porque de facto é em cinzas que se encontra presentemente o nosso país. E não temos por hábito delas renascer, como no mito da Fénix.

 

Cavaco Silva tem inteira razão quando diz que "os indicadores conhecidos são claros. Portugal vive uma situação de emergência económica e financeira, que é já, também, uma situação de emergência social, como tem sido amplamente reconhecido". Mas, perante este diagnóstico, há uma pergunta que se põe. Essa situação não implica que esteja em causa o regular funcionamento das instituições democráticas, o que constitui fundamento para o Presidente da República demitir o Governo, nos termos do art. 195º, nº2, da Constituição? Perante um diagnóstico destes, como é possível que o Governo continue em funções, como se nada se passasse?

 

Esta semana vai ser terrível para o Governo. Depois do discurso de hoje de Cavaco, temos amanhã a moção de censura do Bloco e no sábado a manifestação da "geração à rasca". Naturalmente que o Governo procurará continuar no seu percurso normal, mas é manifesto que a crise política foi hoje anunciada. Resta saber se a oposição de centro-direita responde à chamada ou vai continuar a aguentar por mais tempo esta situação.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 17:41





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