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Ucrânia: a irresponsabilidade europeia (III).

Sexta-feira, 11.04.14

 

Este texto do Pedro Correia e este texto do Luís Naves justificam que volte ao assunto do que considero ser a irresponsabilidade europeia na Ucrânia e cujo resultado está à vista de todos. É muito fácil demonizar a Rússia como agressor, mas tal implica esquecer o óbvio: que a União Europeia apoiou um governo de extremistas, formado na Praça Maidan, que incluía partidos fortemente hostis à minoria russa. Ora, era manifesto que esta não deixaria de pedir auxílio a Moscovo e que a Rússia não iria ficar quieta. Basta olhar para o mapa acima para perceber o risco de guerra civil que o golpe poderia causar, ainda mais quando estimulado por uma União Europeia que prometeu mundos e fundos à Ucrânia, os quais não tem para dar a Portugal ou à Grécia.

 

 

A comparação com a II Guerra Mundial, ao contrário do que se afirma é bem elucidativa. O mapa acima demonstra, ao contrário do que se julga, a força com que a Alemanha saiu do tratado de Versalhes. É que anteriormente tinha vários impérios em seu redor, e depois passou a ter pequenos Estados, que facilmente poderia influenciar. Kissinger já uma vez escreveu que o grande erro de Hitler foi ter estado obcecado em travar uma guerra enquanto era novo. Bastar-lhe-ia esperar e conseguiria o domínio alemão na Europa, não por força das armas mas pelo poder económico.

 

Neville Chamberlain sabia perfeitamente disso, e acreditou ingenuamente que Hitler não precisava de uma guerra. Mas fê-lo por razões pragmáticas. Disse pura e simplesmente perante o ataque à Checoslováquia que, por muito que respeitasse a fraqueza de um Estado europeu perante um vizinho forte e poderoso, não podia envolver todo o Império Britânico numa guerra por esse motivo. A Inglaterra não estava disposta a uma guerra por causa da Checoslováquia, mas já estava por causa da Polónia. É assim que a guerra se inicia quando Hitler invade a Polónia, coisa que ele muito estranhou, pois quem queria combater no futuro era a URSS. E a intervenção da França e da Inglaterra na II Guerra foi um desastre, como se viu logo em Dunquerque, que levou a que a França fosse ocupada e logo a seguir a Inglaterra sistematicamente bombardeada. O que provocou a viragem na guerra foi a entrada dos EUA depois de Pearl Harbor e especialmente o ataque de Hitler à Rússia, que na altura pareceu um erro estratégico, mas que constituía o objectivo de Hitler desde o início. 

 

 

Ao contrário do que se refere, quem especialmente ganhou com a II Guerra foi a URSS, como se pode ver pelo mapa acima, que descreve a cortina de ferro de que Churchill se queixava, a qual aliás ainda foi prolongada com a adesão da Jugoslávia e da Albânia ao bloco comunista. A Inglaterra não só não conseguiu a libertação da Polónia, como também teve que dar o Império Britânico como perdido no momento simbólico em perdeu Singapura para o Japão, como Churchill também reconheceu. Já a URSS não cedeu um milímetro de território conquistado, empurrando a Polónia para Ocidente e dividindo a Alemanha. É assim que se dá por decisão dos EUA o ressurgimento alemão. Qualquer pessoa poderia olhar para este mapa e ver que não seria possível parar o avanço russo sem a Alemanha.

 

Quando se inicia a guerra da Coreia, o avanço comunista parecia imparável. Foi parado apenas por MacArthur, que com uma estratégia militar brilhante chegou a tomar Pyongyang. Só que isso desencadeou a entrada da China no conflito e ele viu que não podia derrotar o exército chinês. MacArthur pediu então a Truman para lançar bombas atómicas sobre a China, o que este recusou, por saber que isso implicava uma guerra nuclear com a Rússia. Na altura afirmou que a estratégia americana era limitar a guerra à península da Coreia e que MacArthur era demitido por não concordar com a estratégia. Ficou-se a saber que a URSS e a América travariam guerras ao domicílio mas não um conflito nuclear global. Mais uma estratégia de apaziguamento que não deixou libertar o quinto cavaleiro.

 

A excepção a esta regra era a Europa. Todos sabiam que não se podia ganhar uma guerra convencional na Europa contra o exército soviético, que em 36 horas podia ocupar todo o continente. Por isso ficou estabelecido que qualquer avanço russo teria como consequência uma resposta nuclear. Na altura foi dito que bastava um polícia da Alemanha de Leste perseguir um ladrão em Berlim Oeste, ou um carro de bombeiros do Leste vir ajudar a combater um incêndio em Berlim Oeste, para os EUA responderem com o nuclear. Kruschev dizia que Berlim eram os testículos do Ocidente, já que podia atacar em todo o mundo excepto em Berlim.

 

A queda do muro de Berlim permitiu a reunificação alemã e os governantes alemães, de Kohl a Merkel, não quiseram mais repetir o erro de Hitler. A conquista de influência já não precisava de ser militar, pois podia ser apenas económica. Só que isso podia implicar o desmantelamento de Estados, o que não deixaria de levar à guerra. Foi assim que a Europa, por influência alemã, apoiou a independência da Eslovénia e da Croácia, sabendo-se que a Sérvia iria reclamar os territórios ocupados pelos seus habitantes com uma inevitável guerra civil. Apoiou depois a indepedência do Kosovo, desde sempre um território sérvio, embora esmagadoramente ocupado por albaneses. A Rússia, tradicional aliada da Sérvia, e pela qual tinha travado uma guerra sangrenta em 1914, não reagiu.

 

Mas em 2008 tudo mudou. Quando a Geórgia decidiu pôr em causa a autonomia das suas províncias separatistas da Ossétia do Sul e da Abkházia a Rússia reagiu pela força militar, pelo que era óbvio que não deixaria de o fazer na Ucrânia. Por isso quando a União Europeia, especialmente por influência alemã, decidiu apoiar a colocação na Ucrânia de um governo hostil aos russos, Putin resolveu responder da mesma forma que a União Europeia tinha feito na Jugoslávia: apoiar a secessão de sucessivas regiões da Ucrânia, onde a população russa é considerável. Pelo caminho, propõe-se uma "federação", que depois facilmente se dissolve, como aconteceu na Jugoslávia.

 

É por isso que antes de a União Europeia se ter posto a apoiar golpes e governos extremistas na Ucrânia, devia considerar que a Rússia não é hoje a mesma que aceitou pacificamente o desmembramento da Jugoslávia e da Sérvia. A Rússia de hoje não vai abdicar de ter uma zona de influência própria e não vai aceitar a expansão da União Europeia para Leste. Quanto à União Europeia, o facto de ser um gigante económico não afecta o facto de continuar a ser um anão político, e pior ainda, um anão militar, que ainda por cima deixou de ter o guarda-chuva americano. Como bem escreveu Vasco Pulido Valente, "o Ocidente demonstrou ao mundo inteiro que recusa um novo conflito, na Ucrânia ou no pólo Norte: a América porque, ao fim de uma guerra perdida no Iraque e no Afeganistão, o eleitorado está maciçamente contra uma nova aventura; a Europa porque não tem dinheiro, nem poder militar para ameaçar ninguém (Obama até pediu que a França, a Inglaterra e a Alemanha investissem em armamento um pouco mais do que investem hoje)". Uma vez tive um encontro com um juiz do Supremo Tribunal Americano, que me confessou não acreditar na União Europeia, dizendo que a bandeira europeia só teria significado no dia em que aparecesse alguém disposto a dar o seu sangue por ela. A verdade é que continua a não haver ninguém disposto a esse sacrifício. Eu queria ver aqueles que agora criticam a Rússia pela sua intervenção na Ucrânia dispostos a alistarem-se num exército de defesa da Ucrânia contra a Rússia. No tempo da guerra civil espanhola houve muitos voluntários internacionais que combateram em Espanha. Hoje, não havendo nada disso, era preferível que a União Europeia tivesse algum sentido da realidade. Por que as pífias sanções económicas não assustam ninguém.

 

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publicado por Luís Menezes Leitão às 13:50

Ucrânia: a irresponsabilidade europeia.

Quinta-feira, 27.03.14

 

Ao contrário do que sustenta o Pedro Correia, parece-me evidente, como aqui escrevi, que o comportamento da União Europeia na crise ucraniana foi de uma gigantesca irresponsabilidade, especialmente devido à excessiva influência alemã na Europa. Como é óbvio, tal não implica considerar que a Rússia não tenha sido agressora neste âmbito, mas quem conhecesse um mínimo de lógica geopolítica sabia que isso iria acontecer e poderia e deveria tê-lo evitado. É isso o que se faz todos os dias na arena internacional onde, por muito que gostássemos, as coisas não são a preto e branco, e todos sabem que não se pode alterar o status quo sem haver consequências, podendo as coisas ficar muito piores.

 

Kissinger referiu que, durante a presidência de Nixon, os EUA foram avisados pela URSS de que poderia haver um litígio com a China. Em linguagem diplomática, isso significa que preparavam uma guerra, tendo tido a imediata resposta de que os EUA não ficariam indiferentes perante um ataque à China, o que levou a que a guerra não tivesse ocorrido. Em 1990 Saddam Hussein perguntou à embaixadora dos EUA o que pensava de um litígio entre o Iraque e o Kuwait tendo tido como resposta de que os EUA não tinham opinião sobre litígios entre países árabes. Naturalmente que o Kuwait foi invadido e os EUA viram-se obrigados a travar uma guerra com muitos mais custos neste âmbito.

 

Hoje sabe-se que os EUA, depois da crise e com a presidência Obama, deixaram de estar disponíveis para ser o polícia do mundo. Sabe-se também que a dissolução da URSS criou um seriíssimo problema de populações russas espalhadas pelas antigas repúblicas soviéticas, cuja protecção foi assumida por Moscovo, e que têm vivido de forma mais ou menos autónoma em relação ao país onde estão. Quando em 2008 a Geórgia decidiu ocupar pela força as suas regiões da Ossétia do Sul e da Abkházia, de maioria russa, teve imediatamente uma invasão da Rússia, tendo ficado bem claro para todos que a Rússia não deixaria de agir em defesa das suas populações, estivessem elas onde estivessem. E argumentar que a maioria era outra antes das deportações da época soviética, como sucedia com os tártaros na Crimeia, é anunciar que pode haver novas deportações, agora de russos. Só que não é possível fazê-lo sem entrar em guerra com a Rússia, como esta já deixou bem claro.

 

Todos sabiam isto quando começou a crise ucraniana. Ora, Ianukovich podia ser um bandido, mas fora eleito democraticamente, com os votos das populações russas, podendo ter sido substituído nas eleições subsequentes. Apenas porque ele tomou a decisão de não assinar o acordo com a União Europeia, foi deposto num putsch à antiga, e substituído por um governo de extremistas, formado na Praça Maidan, que declarou ilegal o uso da língua russa no país. Como é óbvio, esta atitude poderia atirar a Ucrânia para a guerra civil, pois é claramente uma declaração de guerra aos russófonos, dizendo-lhe que os seus votos já não contam pois o governo passa a ser eleito na praça. Alguém imagina que as populações russas não reagiriam e que a Rússia ficaria quieta? Imagine-se o que teria sido se em Portugal em 1975 dissessem ao resto do país que os governos iam passar a ser formados por uma manifestação de extremistas no Terreiro do Paço. O norte do país não aceitaria e o leste da Ucrânia também hoje não o admite, como se vê por esta manifestação em Donetsk.

 

O bom senso implicaria que a União Europeia tivesse imediatamente dito que o novo governo não era reconhecido e que só assinaria o acordo de associação com um governo democraticamente eleito por todo o país. Foram a correr reconhecer o novo Governo, prometeram mundos e fundos aos novos governantes, e já assinaram o acordo, só que já não sabem com que Ucrânia. É por isso evidente que a actuação europeia foi de uma enorme irresponsabilidade. Se isso não desculpa a invasão russa, também não deve levar a que não se apurem as responsabilidades europeias por este desastre. Desastre de que ainda só vimos o princípio, pois parece-me que a procissão ainda vai no adro. 

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publicado por Luís Menezes Leitão às 08:06

A Europa a seus pés.

Domingo, 13.05.12

Desde o fim da II Guerra Mundial que não temos um chanceler alemão com o poder na Europa que possui a chancelerina Angela Merkel. Desde que surgiu a crise do euro que todas as instituições da União Europeia se apagaram e o verdadeiro poder na Europa se deslocou totalmente para Berlim. Os portugueses puderam assistir a Sócrates ser chamado a Berlim ou a Passos Coelho levar um puxão de orelhas por ter reprovado o PEC 4. Desde então Passos Coelho está tão disciplinado à ortodoxia germânica que até declara publicamente que Portugal é contra os eurobonds, os quais, apesar de inaceitáveis para a Alemanha, nos seriam altamente favoráveis. E para que não tenhamos sequer ilusões sobre a actual realidade em que estamos, Passos Coelho mandou até abolir o feriado que comemora a independência de Portugal.

No resto da Europa, por muito que os países votem contra as medidas impostas pela Alemanha, os governos acabam por se vergar. A Grécia já foi avisada que, sejam quais forem os resultados eleitorais, nem sonhe em formar um Governo com os partidos opositores da troika. Se o fizer, o dinheiro é cortado no minuto seguinte, caso em que os gregos terão o exemplo vivo do significado da sua expressão kaos. E a França, depois das ridículas bravatas eleitorais do senhor Hollande, assiste agora a este ir, no próprio dia da sua tomada de posse, a Berlim ao beija-mão, num acto de vassalagem inacreditável para um Presidente francês. 

Já se viu assim que as eleições nos restantes países europeus não servem para nada, que a senhora Merkel continua a pôr e dispor como quer na Europa. Curiosamente, no entanto, tem vindo a perder todas as eleições na Alemanha, de que a estrondosa derrota hoje no Nordrhein-Westfallen é o mais recente exemplo. Começa a ser, no entanto, estranho que as eleições regionais alemãs tenham mais peso para o resto da Europa que as eleições nacionais dos restantes países. Se é o Governo alemão que actualmente manda na Europa, não deveriam os restantes europeus ter uma palavra a dizer sobre esse governo?

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publicado por Luís Menezes Leitão às 21:48

O vídeo da "União" Europeia.

Quarta-feira, 07.03.12

 

Não sei o que é mais disparatado nesta história do vídeo da União Europeia. Em primeiro lugar, o vídeo é de um primarismo absoluto, carregado de estereótipos sobre os naturais dos outros continentes, pelo que não consegue convencer ninguém sobre as vantagens do alargamento da União, especialmente se esse alargamento abranger a Turquia. Em segundo lugar, o pedido de desculpas posterior (a quem?) só demonstra uma absoluta má consciência. Mas, ao contrário do que se julga, a imagem que o vídeo transmite não é de uma união, mas antes de uma divisão da Europa que, no quadro actual, bem pode revelar-se profética. Tudo isto só demonstra é que a Europa anda presentemente à deriva.

 

 

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publicado por Luís Menezes Leitão às 09:39

O Tratado Orçamental.

Terça-feira, 28.02.12

 

Não era possível haver nada mais espantoso neste quadro de subjugação total dos países da União Europeia aos ditames do eixo franco-alemão que a apresentação por estes de um tratado orçamental que todos os outros Estados deveriam assinar. O tratado orçamental, ao reforçar a componente intergovernamental, viola claramente os tratados da União Europeia, tirando completamente o tapete à comissão, enquanto guardiã desses mesmos tratados, assumindo o cariz de um Diktat alemão. Não espanta, por isso, que o Reino Unido tenha decidido desde o início ficar de fora, por muitas críticas que a atitude de Cameron tivesse merecido. Depois a República Checa, talvez recordando a submissão de Bénes aos acordos de Munique, também veio dizer que não aceitava esse tratado. Agora é a Irlanda, país submetido à "ajuda externa" mas que muito valoriza a sua independência, conquistada à custa de muitos sacrifícios, que vem sujeitar o tratado a referendo, onde obviamente não passará. Já a atitude de Portugal é elucidativa. Primeiro aboliu os feriados nacionais que comemoravam a independência do país e o regime republicano, para que ninguém continuasse a pensar que ainda vivia num país soberano. E agora vai dar o seu acordo de cruz a este tratado orçamental. A questão é que, como refere aqui Wolfgang Münchau, esse tratado na melhor das hipóteses é desnecessário e na pior é altamente perigoso e até pode levar a uma explosão da dívida na zona euro. A meu ver, o tratado ameaça mesmo destruir toda a estrutura laboriosamente construída que tem servido de base à União Europeia. Durante quanto tempo continurão os líderes europeus a brincar com o fogo?

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publicado por Luís Menezes Leitão às 17:06

Isto começa a ser demais.

Quinta-feira, 09.02.12

 

Depois de Angela Merkel se ter atrevido a opinar publicamente sobre os investimentos que uma região autónoma de Portugal deve fazer, agora surge o alemão Martin Schulz, Presidente do Parlamento Europeu, a criticar Portugal por receber investimentos de Angola, considerando que assim o país caminha para o declínio. Confesso que cada vez tenho menos paciência para aturar esta arrogância teutónica. Que se saiba, quando elegemos governantes cabe-lhes a eles decidir a política económica do país, pela qual respondem perante o seu povo e não perante governantes estrangeiros. Não admira que a Grécia já prefira o desastre a continuar a ceder às exigências do duo Merkozy. Parece evidente o colapso do euro e da própria União Europeia. Mas grande parte da responsabilidade cabe às instituições da União que se apagaram completamente em benefício de dois Estados-Membros que até conseguiram impor aos outros um tratado intergovernamental, à margem dos tratados da União. Durão Barroso tem sérias culpas no que se está a passar. A Comissão Europeia a que preside deveria ser a guardiã dos tratados e parece disposta a assistir impávida e serena à sua detruição.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 06:59

Não se brinca com o fogo.

Domingo, 29.01.12

Há dias escrevi aqui sobre o disparate que representa a União Europeia lançar um embargo petrolífero ao Irão quando os seus membros em situação mais complicada, como a Grécia, França e Itália, estão absolutamente dependentes do petróleo iraniano. Parece, no entanto, que a Baronesa Catherine Ashton que, por escolha não se sabe de quem, dirige brilhantemente a política externa europeia, achava que depois de anunciar o embargo o conseguia realizar a prazo ou às pinguinhas, sem que o Irão reagisse. Mas o Irão acaba de demonstrar que está disposto a subir a parada neste jogo de poker que lhe propõem e ameaça cortar o petróleo à Europa já na próxima semana. A União Europeia vai por isso confrontar-se de imediato com um choque petrolífero a somar aos inúmeros sarilhos em que está envolvida. Eu só me pergunto como é que é possível termos tanta incompetência e falta de sentido da realidade à frente dos destinos da União Europeia. Porque o que os líderes europeus andam presentemente a fazer chama-se brincar com o fogo.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 07:30

Um jogo muito perigoso.

Quinta-feira, 03.11.11

 

 

Esta notícia demonstra que Papandreou está a lutar pela sua própria sobrevivência física, e que a estratégia completamente disparatada dos líderes europeus vai empurrar a Grécia para um golpe militar. Efectivamente, as chefias militares gregas podem ter sido destituídas na vigésima quinta hora, mas os militares têm fidelidades e não é seguro quanto tempo vão tolerar a humilhação do seu país associada à exigência de sacrifícios intoleráveis aos seus cidadãos. Com este tipo de medidas, o terreno fica maduro para a chegada de um caudilho qualquer. Pinochet também assumiu o poder no Chile depois de uma onda de greves e manifestações de panelas vazias.

 

A tragédia grega devia servir de exemplo para Portugal perceber que não pode seguir o mesmo caminho. Ninguém compreende que se cortem salários para recapitalizar bancos no quadro de um discurso de engenharia social, a defender o ajustamento salarial dos funcionários públicos ou o empobrecimento colectivo do país. E muito menos são aceitáveis discursos culpabilizadores em relação a pessoas que não têm qualquer responsabilidade no descalabro financeiro a que o país foi conduzido e que vão sofrer na pele essas medidas.

 

Os líderes europeus não estão manifestamente à altura da situação. A ideia de fazer a população de um país sofrer pela actuação do seu Governo já tem um precedente histórico: as humilhantes exigências de indemnizações de guerra que foram feitas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes e que a levou a declarar a bancarrota. Também na altura se defendia que os cidadãos alemães tinham que sofrer pelo comportamento do seu governo. Viu-se onde isso conduziu. Um povo em desespero aceita tudo o que o possa tirar dessa situação.

 

É tempo de acabar de vez com os governos de economistas, que não vêem mais nada para além da lógica dos números, e arranjar políticos que saibam criar soluções políticas para o sarilho em que estamos metidos. Se não, receio que estejamos a preparar o apocalipse.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 11:23

O novo poder na União Europeia.

Sexta-feira, 09.09.11

 

A construção europeia baseou-se até agora numa associação livre de Estados europeus que se uniram para a realização de um projecto comum. O que esta crise está a demonstrar é que os alicerces dessa construção não são sólidos e que por isso o edifício pode desabar por completo. Tal resulta de se ter vindo a permitir um enorme ascendente dos países do Norte da Europa, que se permitem dar ordens aos países do Sul, como se os mesmos não passassem de protectorados seus. O que é grave é os órgãos comunitários assistirem pacificamente a isto, em lugar de deixarem bem claro que não há decisões sobre a União Europeia tomadas à sua revelia.

 

O primeiro exemplo desta tomada do poder na Europa foi a cimeira Merkel-Sarkozy, onde os governantes da França e da Alemanha tiveram o descaramento de indicar aos outros Estados-Membros que queriam que introduzissem o limite ao défice nas constituições. Ora, a Constituição constitui o símbolo máximo da soberania de um povo, sendo inconcebível que um Estado possa dar ordens a outro Estado sobre o que deve pôr na sua constituição. Apesar disso, os Estados do Sul aceitaram atentos, veneradores e obrigados, essa imposição. A Espanha já fez essa alteração constitucional e a Itália acaba de anunciar que também o vai fazer.

 

O segundo exemplo é o da reacção à crise grega. A Grécia caminha para o abismo, mas não me parece que seja por sua culpa que o acordo com a troika gerou uma maior recessão que a esperada, o que a vai impedir de cumprir os limites estabelecidos para o défice. Os países do Norte já estão, porém, fartos da tragédia grega, pelo que vão cortar o apoio e pretendem expulsar a Grécia do euro. Só que essa situação é absolutamente incompatível com os tratados que não admitem a possibilidade de saída do euro. A Comissão Europeia, que tem a função de guardiã dos tratados, finalmente quebrou o silêncio para chamar a atenção para esse aspecto. A resposta foi este projecto holandês de revisão dos tratados, que criaria um novo comissário europeu com poderes para lançar impostos nos Estados que não cumprissem a disciplina orçamental e poderia expulsar os países do euro. Aí teríamos o fim absoluto da soberania dos Estados com os impostos a ser lançados por quem não representa os cidadãos que os pagam, violando-se assim a regra no taxation without representation, que esteve na base da Revolução Americana. Mas, como se viu, quem pode mandar alterar as constituições, também pode mandar alterar os tratados.

 

Os portugueses têm aliás uma experiência histórica nesse sentido. Viriato assinou um tratado de paz com o governador romano da Ulterior, Fábio Serviliano, tratado esse que foi ratificado pelo Senado Romano. O governador seguinte, Quinto Cépio, decidiu, porém, recomeçar a guerra. Quando foi confrontado pelos emissários de Viriato com o facto de estar a quebrar um tratado em vigor, limitou-se a dizer que os tratados só têm a força que lhes dão as espadas. Hoje é igualmente evidente que os tratados pouco valem quando o verdadeiro poder na Europa passou a estar nas mãos de apenas alguns Estados. A Grécia vai ser, portanto, tristemente expulsa do euro. O meu grande receio, como aqui escrevi, é que, dado que Portugal está a percorrer exactamente o mesmo caminho, à tragédia grega se siga a tragédia portuguesa.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 08:17

O governo europeu da Senhora Merkel.

Terça-feira, 06.09.11

Para mal dos nossos pecados, a Senhora Merkel, que apenas os alemães elegeram para mandar no seu país e se preparam para rapidamente despedir, conseguiu por abstenção dos outros líderes europeus mandar em toda a Europa. O seu poder sobre os outros Estados é de tal ordem que até o Primeiro-Ministro Passos Coelho consegue numa visita a Berlim desdizer tudo o que Portugal até agora tinha dito sobre eurobonds, deixando até perplexo Felipe González.

 

A Senhora Merkel acaba, porém, de reconhecer que o euro começa a estar em risco e que a previsível saída da Grécia terá um efeito dominó perigoso. Efectivamente, depois da Grécia seguir-se-á Portugal, Irlanda, e provavelmente Espanha e Itália. A questão é que os tratados nem sequer prevêem a saída de nenhum país do euro, mas apenas a saída da própria União Europeia. É por isso manifesto que o descalabro do euro acarretará o desmoronar da União Europeia, pois não pode a liberdade de circulação de mercadorias continuar a existir se os vários países europeus começarem a competir entre si, desvalorizando as respectivas moedas. Os países do Norte criarão imediatamente barreiras alfandegárias à circulação das mercadorias oriundas dos países do Sul.

 

Aí está como o governo europeu da Senhora Merkel, a que foi conduzida como resultado da omissão dos órgãos da União Europeia, corre o risco de levar ao desmoronar da própria União Europeia. Helmut Kohl já avisou.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 06:27





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