Angst essen Seele auf.

O post abaixo da Cristina fez-me lembrar um filme absolutamente fabuloso de Rainer Werner Fassbinder de 1974 sobre a situação dos trabalhadores migrantes na Alemanha. O filme intitula-se em alemão Angst essen Seele auf, que foi mal traduzido para português por O medo devora a alma. Digo mal traduzido, porque o título, reproduzindo uma fala de um trabalhador migrante, não se encontra em alemão correcto, nos termos do qual seria die Angst ißt die Seele auf.
O filme conta a história de uma viúva alemã, que se envolve com um trabalhador marroquino, muito mais novo, a residir na Alemanha, e do impacto que a relação entre os dois tem na comunidade, sendo fortemente rejeitada pelos filhos e pelos vizinhos. Mas o que mais choca no filme é a forma insidiosa com que o trabalhador marroquino é tratado pelos alemães, chegando ao ponto de numa mercearia, devido ao seu mau alemão, se recusarem a vender-lhe um produto, fingindo que não o entendiam e dizendo-lhe para ir aprender alemão primeiro: "Erst lernen Sie Deutsch, dann können Sie wiederkommen". Naturalmente que por isso, ao sentir essa rejeição constante, o trabalhador marroquino não se integra na sociedade alemã, procurando estar com outros imigrantes, até pelo simples desejo de comer comida marroquina. Tal não impede, no entanto, que ele realize o seu trabalho para uma fábrica alemã em péssimas condições, o que lesa gravemente a sua saúde.
É por isso que sempre considerei extremamente hipócrita a expressão que se usa na Alemanha para designar os trabalhadores migrantes: Gastarbeiter, ou seja trabalhadores convidados. Na verdade, os trabalhadores migrantes são aqueles que realizam o trabalho que os nacionais não querem realizar, ainda por cima em condições que nenhum trabalhador nacional aceitaria. É por isso que existe neste âmbito uma discriminação silenciosa. Nada me chocou mais por isso do que saber há quatro anos que havia apenas cinco inspectores laborais para todo o Baixo Alentejo. Fiquei a pensar em que condições estão os trabalhadores migrantes a realizar o trabalho no nosso país.
