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O conflito Arménia-Azerbeijão.

Domingo, 04.10.20

armenia-azerbaijan-karabakh.gif

Em 2014 fizeram-me a proposta aliciante de na Páscoa fazer uma viagem pela região do Cáucaso, repetindo o percurso de Calouste Gulbenkian em 1890, que o levou a escrever a obra La Transcaucasie et la Péninsule d'Apchéron: souvenirs de voyage. Apesar do trabalho intenso no escritório, que me levou a ter que atender telefonemas durante toda a viagem, não resisti à tentação e lá embarquei numa viagem que me levaria a percorrer sucessivamente a Turquia, a Geórgia, a Arménia e o Azerbeijão.

A viagem foi absolutamente fascinante, mas logo à chegada à Arménia a guia local fala-nos do problema do Nagorno-Karabakh, queixando-se de que a comunidade internacional não reconhecia a sua independência, apesar de autoproclamada, mas que o enclave tinha um governo próprio e até uma bandeira, praticamente igual à da Arménia. Nessa altura, o nosso guia acompanhante avisou-nos que o Azerbeijão tinha sido o único país da viagem a exigir visto de entrada e que uma das perguntas era precisamente se alguma vez tínhamos estado no Nagorno-Karabakh. Nessa altura manifestei logo a minha apreensão por irmos para o Azerbeijão com um passaporte carimbado na Arménia, mas o guia disse que não havia problema.

Percorremos de autocarro praticamente toda a Arménia até à fronteira para o Azerbeijão, mas estava combinado que não a atravessaríamos e que teríamos que regressar a Tblissi na Geórgia e daí apanhar um avião para o Azerbeijão. A guia arménia avisa-nos que quem se aproximasse da fronteira, se tivesse sorte seria abatido a tiro, se tivesse azar seria preso e torturado.

Viajámos assim de avião para Baku, e no controlo dos passaportes o polícia pergunta-me tranquilamente se vim no avião de Tblissi. Respondo afirmativamente e ele começa a folhear as páginas do passaporte, mas quando descobre o carimbo da Arménia desata aos gritos: "Armenia, Armenia!". Sou imediatamente cercado por um conjunto de oficiais, que me pergunta o que venho fazer ao Azerbeijão e por que razão tinha estado na Arménia. Só depois de ter explicado que estava a fazer uma viagem turística por todos os países do Cáucaso e que não queria naturalmente omitir um país tão importante como o Azerbeijão é que me deram as boas-vindas ao Azerbeijão.

O ódio entre os dois países é tão evidente que é quase impossível compreender como é que alguma vez fizeram parte do mesmo país, a União Soviética. Em ambos os países se encontram monumentos de homenagens aos mártires causados por atentados com origem no outro país. Elucidativo foi, no entanto, ver em Erevan um monumento à amizade entre o povo russo e o povo arménio, enquanto que em Baku havia um monumento semelhante, mas dedicado à amizade entre o povo turco e o povo azeri. Desde essa altura que achei que o conflito entre estes dois países seria sempre também um conflito entre a Turquia e a Rússia por interposta pessoa. Acho que a situação actual o confirma.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 11:00





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