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O plebiscito de todos os dias.

Quinta-feira, 21.09.17

No seu Die Welt von gestern (O mundo de ontem), Stefan  Zweig recordava-se de quão maravilhoso era o Império Austro-Húngaro em que tinha nascido, cuja monarquia durava há mil anos e dava uma enorme sensação de segurança a todos os seus habitantes. Mas esse Império não resistiu ao curso da História, tendo sido desfeito em inúmeros estados nacionais que deixaram a antiga Áustria reduzida a um pequeno país. A Europa de 1919 passava a ser outra, criada em Versalhes, e mesmo essa duraria apenas 20 anos, não resistindo a Hitler. A vitória aliada levou à criação de outra Europa em Ialta, no fundo uma Europa dividida pela cortina de ferro, que até partia um país em dois (a Alemanha), tendo estabelecido ainda uma soberania limitada em todo o leste europeu.

 

A Europa de Ialta dava segurança a muita gente, que sempre avisou dos riscos de mexer nas suas fronteiras. Miterrand até dizia que gostava tanto da Alemanha que preferia ter duas. Os alemães é que pelos vistos não gostavam da situação, preferindo a reunificação do seu país. A queda do Muro de Berlim significou o enterro de Ialta, sendo a Alemanha reunificada logo no ano seguinte. Em 1991 seguir-se-iam as independências da Croácia e da Eslovénia, fartas de pertencer a um país dominado pelos sérvios, e o próprio colapso da União Soviética. O facto de existirem minorias sérvias e russas nos novos Estados não impediu naturalmente essa independência. E o mesmo sucedeu em 2008 com o Kosovo em relação à Sérvia. Nessa altura Ialta há muito que estava morta e enterrada.

 

A realidade impõe-se sempre sobre as fronteiras artificiais. Não faz sentido dividir uma nação em dois países (como no caso da Alemanha) e muito menos faz sentido obrigar um povo diferente a fazer parte de outra nação. O caso do Kosovo é óbvio: era um território sérvio mas hoje tem uma população onde os sérvios são apenas 4% e os albaneses 92%. Da mesma forma, a Catalunha sempre foi uma nação com uma língua e uma cultura própria. Se a Croácia é hoje independente, e nunca o foi na sua história, há algum motivo para que a Catalunha não o seja também?

 

Não vale a pena ter saudades de Ialta, como também não valeu a pena chorar pelo velho Império Austro-Húngaro. Como escreveu Renan "a existência de uma nação é, perdoem-me esta metáfora, um plebiscito de todos os dias, como a existência de um indivíduo é uma afirmação perpétua de vida". Para a Espanha chegou a altura de permitir o plebiscito no dia 1 de Outubro. Se o ganha ou perde, compete aos catalães decidir.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 19:07





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