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Uma campanha desastrosa.

Segunda-feira, 01.05.17

Em 2002 quando Jean-Marie Le Pen passou à segunda volta, foi visível o alívio de Jacques Chirac, que temia enfrentar outra vez Lionel Jospin, o qual poderia derrotá-lo. Chirac percebeu que com Le Pen não corria esse risco, mas apesar disso fez uma campanha permanente e consistente, avisando que era preciso votar nele para barrar o caminho a Le Pen. A esquerda alinhou totalmente na sua campanha e embora odiasse Chirac, a quem chamava "o escroque", lá foi dizendo que mais valia votar num escroque do que num fascista. Chirac foi assim facilmente reeleito com 84% dos votos, sendo que um dos que na altura lhe manifestou apoio foi Mélenchon.

 

Quinze anos depois, Macron deve ter julgado que lhe bastaria também ir à segunda volta com Marine le Pen para ter a eleição no papo. Foi assim que fez um discurso de vitória logo após a primeira volta (!) e foi festejar com duzentos convidados (!!) numa brasserie chique de Montparnasse intitulada "La Rotonde", onde distribuiu champanhe francês à descrição (!!!). Foi um disparate rotundo. Macron não percebeu que nem ele é Chirac, nem Marine le Pen é o seu pai, sendo uma adversária muito mais perigosa. Foi assim que enquanto Macron ficou em pousio até quarta-feira, se calhar por causa da ressaca da festa, Marine já andava correr os mercados e os pescadores desde as primeiras horas da manhã de segunda-feira. Um erro crasso de Macron que o próprio Hollande não hesitou em denunciar.

 

O segundo erro de Macron foi a visita à fábrica da Whirlpool que vai ser transferida para a Polónia. Não se percebe porque é um candidato presidencial vai visitar uma fábrica com trabalhadores desesperados se não tem nada de concreto para lhes prometer, a não ser um discurso abstracto sobre as regras europeias, saindo por isso de lá vaiado. Marine le Pen limitou-se a prometer que com ela a fábrica não fecharia — promessa obviamente impossível de cumprir — e saiu de lá em ombros.

 

Macron percebeu que o discurso anti-europeísta de Marine le Pen lhe estava a render frutos, enquanto que o seu discurso pró-europeu lhe causava engulhos, tanto assim que nem sequer conseguia agora recolher o apoio de Mélenchon, que por muito que odiasse Marine le Pen, também não conseguia declarar apoio a Macron. Pelos vistos os seus eleitores da França Insubmissa podiam ser facilmente convencidos a votar num escroque contra um fascista, mas já lhes custa muito mais votar num banqueiro contra uma fascista, até porque Marine fez logo questão de demonstrar os muitos pontos comuns que existem entre o seu programa e o de Mélenchon.

 

Talvez por isso Macron resolveu fazer agora um verdadeiro pino eleitoral, ameaçando a Europa com um Frexit se não se reformar, naturalmente às conveniências da França. Ora a principal oposição do eleitorado francês a Marine le Pen era precisamente pelo seu discurso anti-europeu, pelo que se Macron alinha no mesmo discurso, não só credibiliza as propostas de Marine le Pen, como destrói a principal razão para os franceses votarem nele.

 

Apesar de todos estes disparates, Macron pode continuar a ganhar no domingo. Não deixa, porém, de ter feito a pior campanha presidencial de sempre numa segunda volta.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 12:33

A União Europeia em questão.

Domingo, 23.04.17

Se há coisa que demonstra que a União Europeia não passa de um gigante com pés de barro é precisamente o facto de tremer como varas verdes de cada vez que há uma eleição num dos seus estados mais fortes. A verdade é que a União Europeia é composta presentemente por 28 países (até à saída do Reino Unido), pelo que poderia perfeitamente perder um ou dois países sem consequências de maior. Só não sucede assim porque a construção europeia é artificial, sendo apenas uma estrutura de domínio dos Estados pequenos pelos grandes. Para inglês ver, lá puseram um parlamento europeu sem iniciativa legislativa onde os deputados falam sozinhos e uma comissão, que deveria ser independente, mas faz tudo o que os Estados grandes mandam. A Europa foi preparada para ser gerida por quatro grandes Estados: Alemanha, França, Reino Unido e Espanha. Por isso, se algum deles sair, como aconteceu com o Reino Unido, e poderia acontecer com a França, a estrutura cai como um castelo de cartas.

 

Vale por isso a pena perguntar se se justifica manter este castelo de cartas. Da minha parte, sempre preferi viver num país livre do que aprisionado numa mentira. Actualmente vivemos com uma moeda que não podemos pagar, beneficiando de compras de dívida feitas pelo Banco Central Europeu, já que, sem isso, os nossos juros disparariam. Corremos permanentemente o risco de que em qualquer eleição ou referendo num dos grandes Estados alguém diga que já basta de financiar os povos do Sul. E perante este risco, dizem apenas que a União Europeia garante a paz na Europa. Bem, Portugal não tem uma guerra no seu território europeu há quase duzentos anos, sendo que só tivemos que participar numa guerra na Europa em 1917 porque a República assim o decidiu e a mesma consistiu apenas numa expedição à Flandres. Mas que hoje a Europa está em guerra, isso ninguém tem dúvidas, como o atentado de Paris demonstra. E que tem feito a União Europeia para resolver esse assunto? Absolutamente nada.

 

Por muito que continue o discurso de fé na construção europeia, a verdade é que a mesma está a ser questionada em todo o lado. Ou a União Europeia sofre uma reforma profunda ou acaba. Só não vê quem não quer.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 11:39

As eleições francesas.

Terça-feira, 24.04.12

 

Estive há dias em Paris, cidade que muito aprecio. Ao passar junto ao Arco do Triunfo assisti a um desfile em homenagem a antigos combatentes da II Guerra Mundial, em que a assistência denotava um patriotismo profundo e um enorme respeito pelo sacrifício dos antigos combatentes. Pensei logo no contraste com a política actual de Sarkozy, que se tem assumido na esfera internacional como um autêntico fantoche de Angela Merkel, e o que isto deveria fazer lembrar os franceses o regime de Vichy. A partir daí fiquei convencido que Sarkozy tinha tantas hipóteses de ganhar as eleições como a Torre Eiffel de dançar o samba. Os resultados de domingo passado confirmaram a minha opinião. Hollande pode ser um candidato fraquíssimo e a sua política económica um disparate total, susceptível de conduzir a França ao desastre. Mas o facto de ter batido o pé à Alemanha na questão do tratado orçamental vai seguramente dar-lhe o voto dos franceses na hora final.

 

Também não foi surpresa para mim a votação de Marine Le Pen, que sempre considerei muito mais perigosa do que o pai. Na verdade, Marine Le Pen está a conseguir quebrar o bloqueio do regime à Frente Nacional, que levava a que, mesmo com votações na ordem dos 15%, ela não contasse no espectro político francês. Na única vez em que Jean-Marie Le Pen, devido a uma divisão da esquerda, conseguiu passar à segunda volta, todos os partidos se uniram em redor de Chirac, dando-lhe uma votação albanesa de 84% dos votos. Mas agora, com a votação da extrema-direita perto dos 20%, a direita tradicional vai querer pescar os votos da Frente Nacional, como se viu com o discurso de Sarkozy na primeira volta e que agora vai acentuar na segunda. O resultado disto pode ser uma catástrofe para a direita francesa, que se pode ver obrigada a integrar a Frente Nacional.

 

Tudo isto só demonstra o desastre aonde Sarkozy conseguiu conduzir a direita francesa. Infelizmente não me consigo recordar de um presidente francês pior. Só espero que Hollande não o venha ainda a superar.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 12:25

Obviamente Dominique de Villepin.

Domingo, 11.12.11

 

Fico muito satisfeito com este anúncio da candidatura de Dominique de Villepin à presidência da França. Assisti uma vez a uma comunicação de Villepin e fiquei convencido que teria sido muito melhor presidente do que Nicolas Sarkozy. Este foi um desastre total como presidente francês, tendo transformado a França num mero compaignon de route da Alemanha, quase parecendo o Marechal Pétain da Senhora Merkel. Não admira, por isso, que todas as sondagens coloquem Hollande muitos pontos acima de Sarkozy. Se a direita francesa não quer perder as presidenciais, não pode continuar a apoiar Sarkozy. Villepin é o homem certo para restituir à França o papel que ela deve continuar a desempenhar na Europa.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 22:26





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