A guerra civil ucraniana.

É extraordinário que se insista em não ver o que é há muito tempo óbvio: a Ucrânia está numa situação de guerra civil, com combates sem tréguas entre as forças governamentais e os rebeldes russos. Nos últimos tempos tornou-se claro que as ambições terrritoriais russas se limitavam à Crimeia, pelo que uma vez conquistada esta, Putin deixou de se interessar por uma intervenção militar na Ucrânia, tendo inclusivamente pedido ao Parlamento a anulação da autorização para esse efeito. Tal não significa, no entanto, ao contrário do que inicialmente julgou Poroshenko — e que o levou a desencadear uma ofensiva militar — que tivesse decidido abandonar os rebeldes russos à sua sorte. Na verdade, o que o abate do avião malaio demonstra é que Putin está a armar os rebeldes russos na Ucrânia. Efectivamente, mísseis terra-ar não se compram num supermercado, pelo que, quando estão na mão de rebeldes, significa que há um país estrangeiro que lhes está a fornecer armas, neste caso obviamente a Rússia. A Rússia parece assim querer repetir na Ucrânia a estratégia dos EUA no Afeganistão após a invasão soviética. Formalmente não se envolveram no conflito, mas foram armando até aos dentes os militantes mujahidin, levando a que a URSS acabasse por decidir sair do Afeganistão. O problema dessa estratégia é que a guerra fica sem uma estrutura de comando definida, tornando-se muito mais brutal, com consequências imprevisíveis. O Afeganistão acabou por se transformar num Estado taliban, que deu apoio ao ataque de Bin Laden aos EUA. Se na Ucrânia já se chega ao ponto de abater aviões civis, imagine-se o estado em que o país vai ficar se esta deriva continuar. E com a sua importância estratégica para o transporte de gás à Europa, bem podem os europeus literalmente ficar arrepiados com o que se seguirá.
