O apoio de José Sócrates.
Salienta o Pedro abaixo o que deve ter sentido Gouveia e Melo no momento em que soube do apoio de Sócrates. Tivemos a possibilidade de assistir à sua reacção ontem no debate com o Jorge Pinto. Tomou conhecimento do apoio em directo, subiu-lhe a mostarda ao nariz, e ainda tentou atacar o mensageiro, considerando provocatória a pergunta sobre esse apoio.
Quanto a Sócrates, apoiaria qualquer um que não fosse António José Seguro, o único que se opôs ao seu domínio absoluto no PS. Por isso António José Seguro foi derrubado na primeira oportunidade, numa coligação Sócrates-Costa, que no entanto se desfez logo que Sócrates foi preso. Nessa altura António Costa pediu aos militantes que não falassem sobre o assunto e só visitou Sócrates na prisão muitos meses depois. Em resposta Sócrates abandonou o PS.
Por isso a obsessão dos apoiantes de António Costa no PS é evitar a todo o custo que António José Seguro passe à segunda volta, mesmo depois de o PS o ter decidido apoiar. Sócrates pode ter-se zangado com António Costa e o PS, mas partilha claramente dessa estratégia. Se para isso é necessário votar em Gouveia e Melo, assim seja.
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Citação clássica (2).
Sobre isto, resta-me mais uma vez recordar a sabedoria dos antigos: "Donec eris felix, multos numerabis amicos; tempora si fuerint nubila, solus eris" (Ovidius, Tristia, I, 9, 5,).
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Et tu, Brute?

João Galamba diz que Sócrates "envergonha qualquer socialista".
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Entrevista literária.

Pode ver-se aqui uma entrevista sobre os livros de um autor consagrado e que tem tido um enorme sucesso de vendas em Portugal. A não perder.
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Com amigos assim…
Costuma dizer-se que a vingança é um prato que se come frio. Neste caso está a ser servido gelado. Sócrates tem há muito tempo velhas contas a ajustar com o PS de António Costa, que lhe tirou completamente o tapete e o deixou sozinho e ignorado. Por isso Sócrates aparece agora a "apoiar" Medina, desde há muito o delfim de Costa, pretendendo misturar na opinião pública o seu caso com o dele, em plena campanha eleitoral. Imagine-se isto como slogan de campanha: "Sócrates e Medina, a mesma luta". Com amigos assim…
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Porreiro, pá!

Grande parte dos sarilhos que a União Europeia está agora a atravessar deve-se ao Tratado de Lisboa, que constituiu uma forma encapotada de impor aos cidadãos a mesma Constituição europeia que tinha sido estrondosamente rejeitada em referendo na França e na Holanda. Na altura Sócrates e Barroso alinharam nessa mascarada vergonhosa, através da qual os líderes europeus fizeram questão de tomar os seus próprios cidadãos por parvos. Agora Sócrates, como se nada tivesse a ver com o assunto, escreve um artigo a criticar o défice democrático da União Europeia, a que chama "o desencantamento". Eu chamar-lhe-ia antes "o descaramento". O Tratado de Lisboa foi exigido pelos Estados grandes para lhes permitir manter a maioria no Conselho, mesmo depois das sucessivas adesões de novos países à União Europeia. Sócrates aplicou escrupulosamente a receita que lhe encomendaram e agora queixa-se de défice democrático? Só para rir.
O resultado desta cegueira europeia está bem à vista no discurso triunfante de vitória de Nigel Farage no Parlamento Europeu. Descontando a agressividade e os insultos, há uma coisa em que Farage tem razão: o motivo pelo qual os ingleses votaram pelo Brexit foi precisamente pelo facto de lhes terem imposto pela fraude uma união política, sem o mínimo cuidado de assegurar o consentimento dos povos. E agora, perante o falhanço total desse projecto, com a moeda europeia a revelar-se um desastre para os países do Sul, a União Europeia vive em estado de negação, persistindo em nada fazer. E a única coisa que os seus apoiantes têm para dizer é que a integração europeia assegurou 70 anos de paz na Europa. O Império Romano também assegurou 400 anos de paz na Europa e acabou por cair às mãos daqueles que dominava.
O projecto europeu de Schumann e Monet sempre assentou na construção da unidade europeia através de pequenos passos. Desde o falhanço da Comunidade Europeia de Defesa em 1953 que se sabe que é um risco enorme avançar precipitadamente em projectos de integração que não têm garantido o adequado consenso. No caso do Tratado de Lisboa sabia-se perfeitamente que não só não havia consenso, como havia uma vontade popular clara no sentido da sua rejeição, como ficara demonstrado pelos referendos negativos à constituição europeia. Avançou-se ainda assim e hoje os resultados estão à vista. Quando se fizer a história do início do fim do projecto europeu é a imagem de cima que ficará.
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A vingança.
Já tinha escrito aqui que a tentativa de António Costa de querer evitar que a libertação de Sócrates se misturasse com a campanha do PS não passava de wishful thinking. Na verdade, sempre achei que a ascensão de António Costa a líder do PS, com a ajuda dos socráticos, tinha como objectivo claro o apoio do PS à candidatura presidencial de Sócrates, o que António José Seguro nunca autorizaria. Precisamente por esse motivo, o facto de António Costa ter desligado o PS de Sócrates, a partir do momento em que este foi preso, foi visto por Sócrates como uma traição, à qual este não deixaria de retaliar.
Fê-lo precisamente agora com uma irónica declaração de apoio a António Costa. Depois de António Costa ter declarado que não respondia a perguntas sobre José Sócrates já que estava mais concentrado em responder às preocupações dos portugueses, Sócrates responde que está ao lado do PS e de António Costa e que agradece "aos militantes e simpatizantes do PS o apoio e o companheirismo sem falhas que sempre me dispensaram e tanto me sensibilizaram". Há quem possa ver nisto apenas uma indirecta. Para mim, isto é pelo contrário um directo dado por Sócrates em António Costa.
Diz o povo que a vingança é um prato que se come frio. Este está a ser servido gelado.
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Isto ainda agora começou.

Esta entrevista de José Sócrates é um tiro mortal em António Costa, precisamente na pior altura, quando lhe começam a cair em cima os estilhaços da crise grega, depois do seu irresponsável apoio ao Syriza. Sócrates diz: "Não esperem de mim, em período pré-eleitoral, qualquer palavra que possa prejudicar a liderança do PS. Até porque me ficaria mal". Mas imediatamente a seguir responde à tentativa de António Costa de desligar o PS da sua prisão com uma frase lapidar: "É muito frequente ser difícil distinguir o discurso da responsabilidade do da covardia e da rendição". É assim evidente que Sócrates vai fazer António Costa pagar caro a sua tentativa de colocar o PS num assento etéreo acima de Sócrates. É por isso que Sócrates responde à pergunta sobre se a política para ele acabou com outra resposta elucidativa: "Isto ainda agora começou". Que não haja dúvidas a esse respeito.
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A tragédia do PS.
Depois de Mário Soares, apenas José Sócrates conseguiu atingir o estatuto de líder incontestado do PS. Efectivamente, a sombra de Mário Soares pairou sempre sobre todos os outros líderes do PS. Constâncio demitiu-se, acusando Mário Soares de interferência na sua liderança. Depois Soares apoiou a ascensão de Guterres contra Jorge Sampaio, para logo a seguir patrocinar um Congresso "Portugal, que futuro?", destinado a demonstrar que era melhor líder da oposição que Guterres. Quando Guterres chegou a Primeiro-Ministro, Mário Soares chegou ao ponto de declarar estar contra a regionalização no referendo patrocinado por Guterres.
Já José Sócrates chegou ao poder apoiado numa forte maioria absoluta, o que lhe deu uma legitimidade própria, que pela primeira vez permitia a um líder do PS sair da sombra de Soares. José Sócrates, porém, nunca afrontou Soares, tendo inclusivamente aceite apoiar uma sua recandidatura à presidência, aos 81 anos, quando era evidente que não tinha quaisquer condições de derrotar Cavaco Silva. É por isso normalíssimo que Soares tenha ido espontaneamente a Évora visitar Sócrates, o que só demonstra elevação de carácter. Soares nunca deixa cair os seus amigos, tendo mesmo, quando era Presidente da República, visitado Bettino Craxi no seu exílio na Tunísia em fuga às condenações da justiça italiana. Outros políticos podem preocupar-se com a sua imagem pessoal ou com as conveniências partidárias. Soares não se move por esses critérios.
Curiosamente Sócrates acabou por deixar sobre o PS uma sombra semelhante à de Soares. António José Seguro era opositor declarado de Sócrates e bem lutou contra a sua influência no partido, mas os apoiantes de Sócrates acusaram-no sistematicamente de pôr em causa o legado do seu querido líder. Apesar dos insistentes pedidos destes, António Costa recusou-se sistematicamente a avançar, até ao momento em que percebeu, na noite das europeias, que António José Seguro já tinha conseguido consolidar a recuperação do PS e iria ser o próximo Primeiro-Ministro, o que quebraria definitivamente a influência de Sócrates. António Costa minizou por isso a vitória eleitoral, dizendo que lhe "sabia a pouco" em comparação com os resultados conseguidos por Sócrates. Bastou essa declaração para que o PS lhe caísse nos braços, saudoso dos tempos gloriosos do anterior líder. Eduardo Ferro Rodrigues proclamou logo no Parlamento que o legado de Sócrates voltava a ser respeitado no partido.
É por isso que, Independentemente da presunção de inocência do visado, a detenção de José Sócrates é politicamente mortífera para o PS. Quando tinha acabado de proclamar o retorno ao legado de Sócrates, a última coisa de que este partido precisava era de ser confrontado com acusações de corrupção no governo cujas qualidades não cessava de louvar. Precisamente por isso vários militantes começaram mais uma vez a enveredar por teses da cabala, levando a que António Costa tivesse que comandar as hostes, ordenando a todos os militantes que se afastassem de Sócrates para preservar o PS da situação que o envolvia.
Só que se assistiu imediatamente a uma revolta em directo protagonizada por Mário Soares. Este foi imediatamente visitar Sócrates à prisão e proclamou do alto dos seus jubilosos 90 anos que "todo o PS está contra esta bandalheira". António Costa sentiu claramente o desafio, assim como antes dele já tinham sentido Constâncio, Sampaio e Guterres, mas permaneceu mudo e quedo perante este ataque de Mário Soares que poderia incendiar o PS contra ele próprio.
Curiosamente, quem sentiu necessidade de reagir em auxílio de António Costa foi o próprio Sócrates. Num inédito comunicado, proferido ao início da noite, proclamou: "Este processo é comigo e só comigo. Qualquer envolvimento do Partido Socialista só me prejudicaria, prejudicaria o Partido e prejudicaria a Democracia".
O que se passou ontem revela assim que não só que António Costa não escapa à sombra de Soares, ao contrário do que sucedia com Sócrates, como também que, mesmo a partir da prisão, a sombra de Sócrates paira igualmente sobre a sua liderança. Uma verdadeira tragédia para o PS na altura em que tudo apontava para uma ascensão imparável em direcção ao poder. António José Seguro é que se deve estar a rir.
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A mentira na política.
Há uns dez anos participei num congresso internacional de juristas, tendo falado com um colega holandês. Ele conhecia Portugal, mas tinha uma opinião muito crítica do país, tendo ficado especialmente perplexo com a degradação dos prédios da cidade de Lisboa, que achava lindíssima, achando inacreditável que nada se fizesse para resolver a situação. Mas o que mais o chocava era a mentira que sistematicamente via nos políticos portugueses. Dizia-me: "Vocês, portugueses, são um povo católico, que é ensinado a tudo perdoar após a confissão dos pecados. Nós somos um povo protestante e por isso somos absolutamente intransigentes com a mentira. Um político que nos tenha mentido uma única vez que seja, por muitas qualidades que tenha, nunca é mais considerado como um político em que possamos confiar, pelo que a sua carreira política acabou".
Na altura pensei logo no caso Profumo e na reacção que sem excepção todos os deputados ingleses tiveram quando perceberam que o Ministro tinha mentido no Parlamento. Ninguém mais o apoiou, nem sequer do seu próprio partido, dizendo-lhe que um político mentiroso devia era ir para casa. Mas na altura achei exagerada a afirmação. O que posteriormente se passou neste anos de chumbo em Portugal fez-me, porém, dar razão a esse diagnóstico. Sócrates foi apanhado a mentir no Parlamento sobre o caso TVI e foi imediatamente desculpabilizado pelos seus deputados que diziam que se tivesse ocorrido não era grave. O inquérito parlamentar que então foi aberto, e que podia ditar a demissão de Sócrates, evitando o que ocorreu posteriormente, foi convenientemente encerrado com o acordo do PSD. E ficou provado que mentir compensa em Portugal.
O governo actual tem sido, porém, especialmente refinado na mentira política. Primeiro foram as juras em campanha eleitoral de Passos Coelho a prometer que não haveria aumentos de impostos nem cortes de subsídios. Agora é o anúncio de que uma subida da TSU para os trabalhadores, aliviando-a para os empresários, é para satisfazer a equidade reclamada pelo Tribunal Constitucional. O CDS faz coro na mentira dizendo que uma subida da TSU não é um aumento de impostos. E um vice-presidente do grupo parlamentar do PSD quer-nos convencer com isto de que a culpa da subida da TSU decidida pelo Governo é de um grupo de deputados socialistas que, exercendo as suas competências, solicitaram ao Tribunal Constitucional que declarasse a inconstitucionalidade de uma medida que toda a gente sabia ser inconstitucional.
Confesso que já não sei o que me espanta mais. Se o facto de se recorrer à mentira com esta facilidade, se o facto de isto ser feito de forma tão grosseira, julgando que os outros são parvos. Just try harder.
