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Jornalismo ZEN.

Segunda-feira, 03.07.17

Confesso que não tenho paciência nenhuma para assistir a políticos travestidos de comentadores. O comentário pressupõe distanciamento sobre o que se comenta, o que alguém envolvido no combate político manifestamente não tem. Mas em Portugal entrou na moda os políticos com ar mais senatorial vestirem o fato de comentadores. Foi assim sucessivamente com Marcelo Rebelo de Sousa, António Vitorino, José Sócrates, Marques Mendes, Santana Lopes e Francisco Louçã. Claro que os mesmos pretendem convencer-nos de que a sua carreira política terminou, e que por isso estão à vontade para comentar, mas tal é completamente falso. Marcelo Rebelo de Sousa construiu laboriosamente a sua campanha presidencial na televisão e José Sócrates, se o tivessem deixado, também o teria feito.

 

Mas o que me choca mais não são esses espaços de verdadeira propaganda política, que as televisões permitem, e que já se sabe que esses políticos aproveitarão no seu próprio interesse. O que me preocupa é a figura do jornalista ali presente que, ou faz de ponto, ou assiste passivamente a autênticas manipulações sem fazer a mínima correcção ou esclarecimento ou sequer uma simples pergunta. Com a honrosa excepção de José Rodrigues dos Santos, que muita polémica deu, os jornalistas alinham pacificamente nestas verdadeiras operações de propaganda.

 

Vem isto a propósito do momento ZEN de Francisco Louçã, em que ele resolveu comparar as questões de Assunção Cristas no parlamento sobre o combate aos fogos com declarações anteriores da mesma de que, como pessoa de fé, aguardaria pela chuva. O problema é que essas declarações de Assunção Cristas, proferidas em 21 de Fevereiro de 2012, eram relativas à seca e não aos fogos, que não se verificam no pico do Inverno. Quem referiu que a chuva poderia combater os fogos foi Catarina Martins, mas sobre ela obviamente que Louçã não abre a boca.

 

Não me espanta nada que Louçã use o seu espaço televisivo para operações de manipulação, uma vez que nunca esperei dele outra coisa. O que me espanta é que esteja uma jornalista presente a permitir esta operação sem um único comentário ou questão ao entrevistado. É com este tipo de jornalismo ZEN que a comunicação social vai perdendo credibilidade.

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publicado por Luís Menezes Leitão às 14:30





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